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29 de jan de 2015

gestando uma maternidade: 9 meses do lado de fora

este é, talvez, o post mais íntimo de todos os que já escrevi. não liguem se a leitura ficar tortuosa. certamente serei interrompida dezenas de vezes enquanto escrevo. mas quero contar pra vcs por que resolvi ter um filho.

antes de mais nada, preciso esclarecer que eu quis e não quis ter um filho por muito tempo. toda garota pensa e repensa a maternidade mil vezes durante a vida. se imagina grávida, se imagina mãe, se imagina contando praquele cara que tá esperando um filho dele, imagina como será a reação dele, fica com medo de ser uma reação horrível, toma pílula, usa camisinha, vive o pavor e o desejo proibido da maternidade quando a menstruação atrasa. vc quer que dê negativo, porque não se preparou pra isso naquela hora, mas quando dá negativo, vc fica arrasada. a gente é obrigada pela sociedade a pensar nisso milhares de vezes, por isso pensamos. eu quis e não quis ter um filho, por muito tempo. até que, uma vez, eu quis ser mãe. e aí eu me decidi.

querer ser mãe é muito, muito diferente de querer ter um filho. porque não é ter, é ser. é passar a desejar aquela transformação em você mesma. é querer incluir aquele novo "ser" em você. ser mulher, ser filha, ser amiga, ser irmã, ser professora, ser escritora, ser tradutora, ser fã, ser leitora, ser prima, ser tia, ser neta, ser sobrinha, e eu também quis ser mãe. sou uma pessoa extremamente egocentrada. adoro minha própria companhia mais do que de qualquer outra pessoa. adoro estar só, adoro tempo pra mim, tenho tantas coisas dentro da minha cabeça, preciso de tempo pra elas. sou cheia de desejos e propósitos. eu nunca precisei de um filho que me desse sentido à vida. eu desejei um filho que me ensinasse coisas que eu achava que faltavam em mim. que me ensinasse a renunciar. que me ensinasse a prescindir. que me ensinasse sobre me doar, sobre ser generosa e disponível, coisas que não sou e não sei fazer.

e ele ensina. e aprender essas coisas dói pra caralho. porque dói mudar coisas dentro de você. mil vezes por dia eu esqueço o motivo de ter decidido fazer isso, mas ao me tornar mãe, aquela parte instintiva já veio tomando conta, e mesmo que eu esqueça as razões de uma decisão tomada alguns anos atrás, eu simplesmente vou lá e faço o que é preciso fazer.

e muitas vezes faço de mau humor. faço de má vontade. não tenho vocação, não nasci pra essa fase de bebê, e não tenho vergonha de dizer. não gosto de trocar fralda, dar banho no bebê me cansa, brincar com ele é muitas vezes super chato e colocá-lo pra dormir é ou estressante ou me mata de sono. faço tudo isso como faço outras coisas da vida que não gosto, mas preciso. lavar a louça, estender a roupa ou levar o lixo pra fora. a diferença é que antes eu decidia quando lavar a louça, estender a roupa e levar o lixo pra fora. hoje eu tenho que fazer todas essas coisas e mais todas as outras que o bebê precisa na hora que ele precisa, ou na hora que ele deixa. perdi toda a autonomia sobre meu tempo. perdi minha prioridade. isso é triste, é cansativo e desalentador. ninguém gosta disso.

mas vivemos numa sociedade de exibição de felicidade onde é um horror admitir isso. admitir toda a carga de infelicidade que vem com a maternidade. nas redes sociais vc está cercada de amigas q postam fotos felizes com seus filhos pequenos, elas estão bonitas, penteadas, maquiadas, e os filhos estão sempre sorrindo. há momentos em que vc vê essas cenas e pensa "o que elas têm que eu não tenho? babá e empregada, talvez", e noutras vezes vc pensa "que ilusão, minha querida. sei o que vc está passando, companheira, e isso não passa de fachada". porque é claro que a gente não tira foto de fralda suja de cocô nem para pra filmar aquelas horas infernais daquela maldita tarde que ele não dormiu nadinha e chorou o tempo todo, se debatendo no seu colo, e vc chorou junto, de raiva, de cansaço, de pena daquele pequeno que vc não consegue ajudar. e aí a culpa, a culpa, a culpa de ficar com raiva, de querer que tudo aquilo acabe, a maior de todas as culpas, aquela de pensar que, se vc pudesse voltar atrás, não teria embarcado nessa aventura. nasce um bebê, nasce uma mãe, e nasce um Everest de culpa.

mas a mudança q eu pedi estava em curso. eu já tinha embarcado na aventura, e não tinha volta. perdida, apavorada, exausta, no fundo eu não daria conta nem de voltar atrás. porque aquela coisinha, aquele serzinho, precisa de mim, caralho! sai da minha frente, medo! e ele não sai, o medo vai te acompanhar daqui pra frente. o susto também. a maravilha também. e o choro sem motivo, e a raiva com motivo, e o sono, a dúvida, o cansaço. é preciso haver espaço para as mães sofrerem. o mundo moderno criou um novo tipo de mãe, ela está mais sozinha, ela não tem empregadas da família, ela mora num apartamento sozinha com o marido, tem uma diarista e olhe lá. ela não tem uma rede, as famílias moram longe. essa mãe sofre, e é preciso não julgá-la. não é menos amor, às vezes é até excesso, e o pavor do tamanho desse amor. o que vai ser dela daqui pra frente? vai caber tudo dentro daquele mesmo corpo, daquele mesmo coração?

é preciso coragem pra enfrentar esse mundo de comercial de margarina, que vende que os segundos se tornam mágicos desde o momento em que vc fica grávida. entender que, no fundo, a gente bota foto do filho no face pra se encher de likes e comentários pra termos uma recompensa rápida e acharmos que tudo aquilo vale a pena, porque pelo menos temos a aprovação da sociedade. isso é meio medíocre, mas é perdoável. é preciso, aliás, entender que essa tal de margarina é um lixo, e que manteiga é que é comida de verdade, assim como eu sou uma mãe de verdade, e é a mais pura verdade que eu odeio aquele cheiro de fralda golfada e Backyardigans. eu amo meu filho apaixonada e loucamente, mas ele não é a melhor parte de mim, não é a minha vida, não é meu tudo. ele crescerá e fará um monte de merdas na vida dele, vai dizer um bocado de coisas de arrepiar meus cabelos e me fará pensar "onde diabos esse menino foi achar de pensar uma barbaridade dessas?". terá defeitos, como eu, como o pai dele, e ainda bem. não quero nem imaginar o tamanho do fardo que carregam as mães que acham que seus bebês são anjos perfeitos, porque o meu anjo perfeito vai comer fruta passada às vezes e usar uma roupa meio suja e furada, e dormir sem escovar os dentes, e eu vou esquecer de dar o remédio, e já pensou se fosse um anjo? e se ele caísse no chão e chorasse? e se ele se machucasse e eu não pudesse impedir? ainda bem q eu nem acredito em deus, senão eu ia pro inferno.

é claro que cada mãe passa por essa experiência de modo diferente. pra algumas é natural e fácil, pra outras não. tem gente que troca de emprego com facilidade, tem gente que tem dor de barriga antes de ir trabalhar durante todo o primeiro mês no emprego novo. tem gente que passa a vida buscando distrações, e não tem nada melhor que um filho pra te ocupar, e muito. eu não. eu nunca precisei de distrações, eu sempre tive milhares de coisas que eu já queria fazer, e me faltava tempo ou dinheiro, e é por isso que sofro ao passar uma hora e meia embalando um bebê pra ele dormir só meia hora. porque eu queria estar escrevendo. ou lendo. ou trabalhando. ou estudando. não tenho inveja das mães que passam pelos primeiros meses como se fossem férias. mas peço a elas que tenham dó das outras mães, e das mães do porvir e que sejam honestas, pois não  há nada de feio nisso. não criem um modelo impossível que só gerará culpa nas pobres coitadas que não estarão à altura dessa mãe do mundo das ideias. e que tenham dó de si mesmas, pois ao alimentarem essa imagem da maternidade doce e mágica, criam o monstro de culpa que vai persegui-las naquele momento mais escroto em que tudo o que vc quer é que aquela criatura durma pra vc poder tomar um banho chorando.

se vale a pena? é claro que sim. não tá cheio de gente tendo dois, três filhos? é necessário? NÃO, NÃO É. uma mulher pode ser feliz sem ser mãe. realizada, plena e feliz. bebês não são deuses. as mães não são santas. e esses pensamentos só fazem mal para quem se torna mãe. ninguém merece ter de ser santa, e, pior ainda, ter que trocar as fraldas sujas de um deus. somos animais sociais pensantes duvidantes aprendentes, sangramos e choramos, e choraremos muito até a primeira gargalhada, até novamente nos sentirmos bonitas na foto do lado do bebê, até realmente nos divertirmos rindo com ele e fazendo-o rir, até finalmente a recompensa vir numa troca de olhares, de carinhos, numa cabeçadinha no seu peito, num beliscão de segurança, nos gestos mais honestos de amor de toda a sua vida. o amor é absurdo demais pra ser explicado ou analisado. não há bons motivos para decidir ter um filho, e há pencas dos melhores motivos para não ter.

still, here we are...

p.s.: links recomendados e libertadores q ajudaram a inspirar este post:

http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2012/10/ter-filhos-traz-mesmo-felicidade.html

http://delas.ig.com.br/filhos/2014-03-22/infantolatria-as-consequencias-de-deixar-a-crianca-ser-o-centro-da-familia.html