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11 de nov de 2014

Um desabafo sobre a patética questão de gêneros em bebês

Então vc está grávida, então vc descobre o sexo do seu bebê e então vc decide que não tem a menor intenção de enfiar o seu filho num modelo engessado de meninos x meninas desde a mais tenra idade, porque isso é ridículo, é claro. Então o quarto onde ele vai viver, que já antes tinha uma parede rosa, continuará tendo. Então vc compra kits de berço com motivos de bichos e lençóis de cores variadas: verdes, lilases, rosas, azuis, xadrezes, listrados, floridos. Então vc compra uma mala de maternidade vermelha e bege. Então vc compra mamadeiras rosas, azuis, vermelhas, verdes, roxas. Roupas lilases, laranjas, amarelas, brancas, azuis, meias rosas, roxas.

Parece fácil, mas não é. Volta e meia vc olha pro berço e se dá com um menino (LINDO) vestido de azul dos pés à cabeça. Como isso aconteceu? Fora os presentes (porque as pessoas dão quase tudo azul mesmo pra ele), existe uma grande dificuldade na decisão de um bebê neutro, livre de estereótipos de gênero. A falta de opção.

Eu vou comprar roupa pro meu bebê e a primeira coisa que me perguntam, obviamente, é se é menino ou menina. Isso será o divisor de águas na hora da compra. Meias, por exemplo. Menino, eu respondo, sempre acrescentando que não tenho a menor frescura em ver tb os itens para meninas, por favor. Mas existem lojas onde NÃO HÁ ITENS NEUTROS. Ou seja, ou vc compra meias de carrinhos de polícia e bolas de futebol americano ou meias com rendas, glitter e fitas de sapatilha de bailarina. Acontece que se eu decidi não engessar meu filho nos modelos preconcebidos de gênero eu tb não tenho o direito de determinar q ele vai ser crossdresser, certo? Não sou do tipo que se ofende se perguntam "qual é o nome dela?", porque já li em fóruns de mães que muitas se ofendem! Li coisas do tipo "mesmo que esteja vestido dos pés à cabeça de azul, me perguntam qual é o nome dela! que raiva! tenho vontade de mostrar o pinto do meu filho!". Juro, li isso. Eu simplesmente respondo o nome e digo, "é menino". "Ah, desculpe", me disse um dia a vizinha que se confundiu. Que é isso, amiga, não peça desculpas, vc não ofendeu meu filho!

Bebês são muito semelhantes, pouco cabelo, nenhum dente, não tem barba, voz grossa ou fina, peitos ou pelos pra te ajudar a dar uma pista do gênero. Mas por que isso teria que ser um problema? Algumas décadas atrás, todos se vestiam igualzinho, com camisolões e camisinhas. Quando eu nasci não existia ultrassom pra determinar o sexo, e as roupas de bebê eram, obrigatoriamente, neutras. Então por que diabos agora eles já têm que ir na primeira consulta da pediatra parecendo bolotas de pano rosas ou azuis? Criou-se um verdadeiro desespero por poder determinar o sexo dessas pessoinhas no primeiro olhar. Nem com crianças mais velhas é assim! As roupas já ficam mais coloridas, democráticas. Sim, claro, pois àquela altura vc já furou a orelha da menina, o cabelo dela já está comprido, ela já foi ensinada a brincar de boneca, já aprendeu um certo número de comportamentos femininos, e já não precisa andar de rosa dos pés à cabeça, pobrezinha. Ganhou direito às cores. Embora, é claro, os meninos jamais ganhem direito ao rosa. Na primeira consulta do meu filho na pediatra ele foi de cinza. Ele era a única criança de colo ali que vc não conseguia identificar o sexo só de olhar. A única. Quer saber? Eu me orgulhava disso. Ele saiu da maternidade de laranja. Lindo de morrer. Mas é difícil, é uma luta diária.

Eu queria um short, e os shorts para bebês mais velhos (tamanhos a partir de 9 meses, por exemplo) já estão muito caros, porque imitam em tudo as roupas de homens adultos, até passador de cinto e bolsos a porcaria já tem. Sessenta reais num negócio que ele vai usar menos de dez vezes?? Aí vc vai no setor feminino (eu SEMPRE vou nos dois) e tem umas peças de malha super fresquinhas e confortáveis por vinte e poucos reais, completamente floridas ou de oncinha. E aí? Levo ou não levo? Me achei numa arara de shorts supostamente femininos por menos de vinte reais e que só tinham duas cores, roxo e branco, azul e branco, e até hoje não entendi por que eram femininos.

No dia que eu fui comprar o cercadinho do meu filho escolhi um amarelo muito muito lindo. Eu ia tb levar chupetas, e peguei um kit com duas chupetas rosa. Atenção: só tinha kit com chupetas rosa e kit com chupetas azuis. Somente. Nenhuma outra cor. Peguei a rosa porque achei mais bonita mesmo. Na hora de pagar pelo cercadinho, vi que só tinha o amarelo com a caixa toda aberta e arrebentada, e eu odeio comprar produto assim. Disse que não queria, e a vendedora disse que então só tinha rosa. Ok, me dê o rosa. Enquanto ela buscava o rosa, voltei na gôndola das chupetas e troquei pelo kit azul, achando que já tava ficando rosa demais aquela compra, pq tb não quero vestir meu bebê "de menina" tanto quanto não quero vesti-lo "de menino". Achei q estava ficando louca, achei que dava um trabalho encaralhado tentar equilibrar as compras, as escolhas, será que não era mais fácil fazer como todo mundo? Só que se eu fizesse como todo mundo eu voltaria pra casa naquele dia com um cercadinho numa embalagem violada ou sem cercadinho ou ainda com um cercadinho muito mais caro (pq aquele lá tava super em oferta). Sei q tem gente (muita gente) q faria isso mesmo. Q não compraria o cercadinho rosa para o menino nem q fosse pela metade do preço. Eu comprei. Mas tenho uma certa vergonha de admitir ter voltado pra trocar as chupetas (e fui burra, devia ter levado os dois kits, um rosa e um azul, q o preço tb tava ótimo).

Mas é ótimo poder reconhecer que nem todo lugar é assim. No caso das meias, na Puket tive dificuldade para achar meias neutras, mas na Lupo não. Pretas, brancas, beges, xadrezes, fiz a festa por lá. Alguém me explica, por exemplo, por que uma meia de tubarões não pode ser de menina? Porque é azul? E por que uma meia de corujas de óculos (sim!! pode mais Harry Potter que isso??) tem que ser de menina? Só por ser rosa e roxa? Um body com desenho de passarinho e uma camisa do Brasil que são "de menina" porque têm um elástico no pescoço que faz um "franzidinho". Hein?

Gente... Que mundo é esse?

Isto não é daqueles posts bonitos nem nada, é só um desabafo. Por que tem horas que pensar dá no saco.

27 de out de 2014

ouve, Dilma

não me verão gritar CHUPAAAA
não me lerão bradar VAZA PLAYBA CHEIRADOR
nada disso me alegra, nada disso me embala o coração valente
a vitória foi apertada, porque há muito pra melhorar
ouve, Dilma, ouve os votos críticos, ouve quem está à tua esquerda, ouve as ruas, recorda as Jornadas de Junho, ouve até a voz rouca da tua oposição
mas ouve, antes de tudo, teu coração valente
tua alma guerreira, tua mente de brava, tua história de luta, teu povo cheio de carinho por ti
leva meu voto, minha confiança, meu carinho, meu respeito, minha admiração
e meus olhos atentos
a tudo

porque hoje, de novo, és musa, és mãe, és presidenta, ÉS DILMA

10 de set de 2014

O preconceito nosso de cada dia

Vivemos numa época em que a pior coisa que te pode acontecer é ser tachado de preconceituoso. Usamos de todo tipo de subterfúgio e explicação para não aceitar a alcunha. Há casos óbvios demais, quase risíveis, como o da torcedora do Grêmio, que mesmo tendo sido filmada aos gritos chamando o goleiro do Santos de "macaco" conseguiu achar cara pra dizer aos prantos que não era racista. É óbvio que ela é racista. E é óbvio que todos somos preconceituosos.

Claro que há níveis e níveis de preconceito, e tipos e tipos também. Mas é virtualmente impossível uma pessoa não ter preconceito algum. O preconceito se baseia na sua experiência anterior de vida, naquilo com que vc já se acostumou, naquilo que te ensinaram e que vc ainda não foi convidado pela vida a questionar, e que, portanto, ainda é o que é válido. Preconceito é quando vc faz um julgamento de valor sobre algo ou alguém não baseado nas qualidades daquele algo ou alguém, mas sim em informações que vc já traz anteriormente. É como quem diz que não é gordofóbico, só acha que gordo não é saudável, não é preconceito, é questão de saúde. Sem saber se aquele gordo é saudável ou não, feliz ou não, vc apenas acha que se a obesidade é uma epidemia, deve ser banida da face da terra e todo mundo tem que ser magro.

Mas o curioso mesmo é quando chegamos nesse grupo de pessoas de onde tiro meus amigos, essas pessoas esclarecidas que não são gordofóbicos, homofóbicas, não são racistas, não se prendem a velhos modelos sociais, são feministas, não acham que casar e ter filhos é obrigatório. Pessoas como eu. Essas pessoas são as mais sensíveis a serem tachadas de preconceituosas. Mas nós somos, sim. Quantos de nós não fazem(os) julgamentos de valor com aquela mulher que sonha em casar e que vira dona de casa, que para de trabalhar pra cuidar dos filhos, e ainda assim contrata babá? Não a conhecemos, não sabemos os motivos dela, não sabemos se ela é boa mãe, mas na maioria das vezes nossa primeira reação é julgar negativamente. Uma garota magra, gostosa, de roupa de academia, cabelo liso com mechas loiras é alvo de tantos pré-julgamentos negativos quanto eu, gorda, flácida, sedentária. Só que somos alvos de grupos diferentes de pessoas. Alvos, talvez, uma da outra. Eu julgo que ela fez todas as escolhas erradas na vida. Ela julga que eu sou um nojo, feia, e que eu deveria ficar em casa até perder setenta quilos.

Ou não. Talvez ela não julgue. Talvez ela tenha me achado bonita e simpática ali na rua. Talvez ela nem tenha parado pra ter um pensamento a meu respeito. Porque colocar pensamentos na cabeça da garota tb é julgá-la. Escrever uma história e meio que automaticamente só colocar as personagens bonitas e gostosas como meio burras e do lado antagonista da história é preconceito. "Catarina" me ensinou a dar valor real à garota mais gostosa da escola. Ela também pode ser a mocinha do livro.

Preconceito religioso, algo que tem sido muito debatido. Nesse grupo de pessoas a que pertenço, preconceito contra ateus é uma constante. Preconceito contra as religiões afro está se tornando um problema nacional. Mas e o preconceito de ateus contra católicos? E de todo mundo contra evangélicos? Vai dizer que vc não tem, de cara, um preconceitozinho contra alguém que segue a Universal?

Dentro do mundo nerd, geralmente composto de uma horda de gente que sofreu todo tipo de bullying, o preconceito grassa, com destaque para o machismo. Mas também encontramos homofobia e até gordofobia vinda de um monte de gordos, que não se aceitam de verdade e, na hora que uma garota gorda faz um cosplay, eles acham um horror.

O preconceito não é só contra pessoas, mas contra hábitos e coisas. Preconceito contra vegetarianismo e contra carnivorismo, ou contra essa história de começar a se preocupar com o que come, fulano deixou de beber, de comer MacDonalds e tomar refrigerante, que mané, virou um chato! Preconceito contra andar de ônibus sem nunca ter andado, preconceito contra exercício físico, sem nunca ter tentado fazer (só pra manter a minha fama de sedentário, odeio mesmo e pronto). Tudo isso eu não só já vi, como muitas dessas coisas eu já senti. E hoje acho que o melhor modo de tentar ter menos preconceitos é admitir que os tem.

p.s.: A ideia deste post me veio quando tive que explicar a uma amiga muito querida e muito não-preconceituosa que, na minha opinião, a rejeição dela ao ebook era um tipo de preconceito porque achava que não era causada por características do próprio ebook, mas porque ela amava muito o livro de papel. Será que sentia como se fosse uma traição a toda a história de amor que tinha com o papel? Como se não coubesse dentro dela gostar de outro formato? O medo do novo, a recusa de experimentar são tipos de preconceito também, um pré-julgamento de que o velho, aquilo a que vc já está habituado, é melhor pra vc, mesmo sem ter dado uma chance real ao novo na sua vida. E eu já senti esse tipo de preconceito muitas e muitas vezes, por exemplo contra publicar em ebook, durante muito tempo. Hoje eu gosto. Ah, e também parei de tomar de refrigerante há um ano, e não sinto falta. :)

28 de ago de 2014

O eleitor desiludido que não perdoa & a política virgem concebida sem pecado

Brasileiro é chegado numa tragédia, né? Vidas sofridas, superação, mortes trágicas, gente chorando. A tv e o Facebook estão cheios disso. Mas isso é só introdução. Eu quero é chegar na Marina.

Eu gostava da Marina quando ela era ministra do Lula. Depois eu fui cada vez entendendo menos a Marina. No PV eu ainda a via comprometida com sua história, mas agora... Eu a vejo aproveitando-se da morte do Eduardo Campos, sim. É a mão de Deus que a salvou, mas não o salvou, é convite para a viúva fazer a chapa com ela... Eu a vejo confusa e sem direção, sem ideologia, sem estofo. Eu não confio no quanto ela muda de partido e aliados. Eu respeito a história dela, mas não confio nela pra governar o meu país. E nem comecei a falar nas ideias moralistas medievais que ela defende ferrenhamente por causa de sua religião. Isso é muito preocupante.

Mas o caso é que Marina tem sido vista e vendida como a tal da terceira via. Pra começar, eu acho terceira via uma piada no Brasil. Essa história de polarização é um teatrinho de fantoches, a política brasileira não está dividida entre PSDB e PT. O tamanho do PMDB é colossal, e outros como PSD, PP, PR, DEM, PDT não são nada menosprezáveis, basta ver a composição do Congresso. A ideia de polarização vem da recente alternância desses dois partidos no governo federal e a facilidade de, com isso, identificar neles alguma ideologia desenhada. Porque na maioria dos outros não se enxerga ideologia alguma, e isso é também preocupante. Vejam bem: eu considero isso um ponto a favor do PSDB. Eu entendo o que eles querem pro Brasil. Eu só não quero o mesmo que eles. Eu entendo o que o PT quer pro Brasil, e é o que eu quero. Mais do que isso, eu entendi o que o PT queria, votei no PT por querer a mesma coisa e o PT ENTREGOU O QUE EU QUERIA. Diminuiu radicalmente a desigualdade social, e continua diminuindo. E por isso eu continuo votando no PT.

Declarado meu voto, prossigo.

Não andei estudando o programa de governo da Marina. Tenho meu voto decidido e estou satisfeita com minha decisão (federal, ok? estadual tá uma bosta...). Mas tenho visto muita gente comentando a Marina, como em 2010, como a opção válida. Sabe o que me incomoda? Eu acho que muita gente aí não se pergunta POR QUE A MARINA? Vejo muita gente que declara voto na Marina porque se decepcionou com o PSDB quando esteve no governo e se decepcionou com o PT. Não está escolhendo a Marina pelo que ela quer pro país, mas está "contra tudo o que está aí". O desiludido que prefere a virgem, sabem? Ela nunca foi governo, então ainda não te decepcionou. Aquela história do "não reeleja ninguém", que é a maior preguiça que um eleitor pode ter. A busca da perfeição só é deletéria na política, pois não haverá perfeição nunca. Partidos errarão, pessoas errarão, você também. Se for votar em Marina, vote por motivos de Marina, não porque tá de mal com PT e PSDB.

(pausa)

Aí eu tava escrevendo este post e, de repente, lembrei disto e disto. De modo que o post ficou muito menor quando me dei conta de que já tinha falado deste assunto em 2010, e continuo pensando e percebendo a mesma coisa, o mesmo motivo distorcido para escolher Marina.

Com dois agravantes desta vez:

1) A morte trágica de Eduardo Campos. Então hoje, se você escolhe Marina pelos motivos errados, pode estar acrescentando aí nesse balaio de ressentimento político e ilusão uma homenagem póstuma a um bonito homem que morreu jovem e deixou cinco filhos, entre eles um bebê, e uma linda esposa mas que, no fundo, você nem conhecia direito (exceto a galera do PE) e menos ainda sabia o que ele queria pro Brasil. Que motivo mais distorcido que esse?

2) Ela pode acabar sendo eleita.

9 de ago de 2014

Forma e conteúdo: uma defesa (im)parcial do ebook

Já há um tempo eu vinha querendo escrever um post sobre ebooks e livros de papel, mas pensava que ninguém ia me levar a sério porque eu publico em ebook e ia parecer uma apologia com fins de propaganda pessoal. Mas o fato é que publicar em ebook me levou a refletir mais sobre isso, e também me colocou em contato com a resistência de muitas pessoas ao ebook.

Pra começar, eu gostaria de dizer que acho uma bobagem esse tipo de dicotomia. Uma coisa não tem (nem vai) excluir a outra. Mas ainda assim me lançarei ao debate.

Quando o ebook entrou na minha vida, teve uma função muito específica. Eu fazia bicicleta ergométrica e gostava de ler enquanto pedalava, mas era pouco prático ter que virar as páginas, e pior ainda quando o livro era pesado. Eu estava lendo Próxima Estação: Paris, do Lorant Deutsch. Aí meu marido baixou pra mim o epub do original em francês (o que já foi um avanço também) e instalou o Aldiko no meu celular. Pedalei e li às mil maravilhas. Métronome foi o primeiro ebook que li.

Mas eu ainda tinha aquele ranço do passado. "Prefiro livro de papel, prefiro ter no que pegar, olhar a estante". Dizia isso com orgulho, citando Caetano: "os livros são objetos transcendentes, mas podemos amá-los do amor táctil". E então eu fui fazer um curso de um mês em Paris, e duas coisas lá me fizeram mudar de perspectiva em relação aos meus livros de papel. Eu via aquelas banquinhas infinitas nas calçadas vendendo livros a um euro, ou até menos (comprei um livro a cinquenta centavos) e pensava: por quanto este cara terá comprado este livro para vendê-lo tão barato? Comecei a achar que aqueles livros eram dados pra ele. Ou quase dados, se fosse um lote grande a um preço muito muito baixo. Quem faria isso com seus livros?

O episódio definitivo foi quando minha professora levou livros para nós. Livros dela. Disse que podíamos pegar o que quiséssemos e levar para ler. Acontece que o curso era de módulos semanais, então sempre tinha alguém se despedindo do curso a cada semana. E alguém perguntou: "mas, professora, como é que eu vou lhe devolver o livro se já estou indo embora?" Ao que ela respondeu: "pra que eu quero esse livro de volta? eu já li."

Fiquei passada. Tinha tanto sentido que fiquei envergonhada. O que afinal a gente quer de um livro? Não é o conteúdo? Não é até mesmo assim que a gente diz, de alguém culto, que lê bastante? A pessoa tem conteúdo.

O resultado foi que, quando cheguei em casa, não havia espaço para acomodar os livros que eu tinha comprado na viagem,e eu tomei uma decisão: começar a doar meus livros. Meus critérios são simples: livros que eu e meu marido já lemos e que não pretendemos reler (hoje em dia eu incluo um pensamento para o meu bebê, e guardo os livros que eu quero mostrar pra ele). Se o livro passa por essa peneira: RUA! Mandei fazer um carimbo com os dizeres "sou um livro viajante / leia-me e passe adiante", mas é claro que não tenho nenhum controle se estão sendo passados adiante ou se estão só aumentando a biblioteca acumuladora de alguém. Não importa. Já deixei livros em banco de shopping, banheiro de restaurante, sala de espera de médico, na escola de idiomas onde dou aula e na portaria do meu prédio. Não diminuiu muito a minha biblioteca, ainda. Sou uma pessoa que relê, e ainda tenho muitos livros que nunca li. Talvez um dia eu aumente o critério para "livros que eu comprei mas não vou ler mesmo, deixa de se iludir, inocente", e mande esses pra rua também.

E o ebook não ocupa espaço, né? Pelo menos, não físico. Comecei a ver as vantagens em filas. Na fila da lotérica, sempre quilométrica, eu sacava o celular e pronto: adeus tédio! Eu que sempre levei livro na bolsa, agora podia levar vários dentro do celular. E ler antes de dormir? É leve e não precisa de abajur! Eu sempre tinha problemas para ler antes de dormir, porque o abajur incomoda o marido e os livros mais pesados eram desconfortáveis para segurar deitada. Comecei a baixar epubs da Agatha Christie adoidado. Ganhei de uma amiga o epub do primeiro livro do Robert Galbraith, The Cuckoo's Calling. Com o melhor livro do ano de 2013 devorado em formato ebook, eu estava definitivamente cativada como leitora. Mas ainda faltava um passo. O maior. Faltava a escritora.

Como a maioria das pessoas que sonha publicar um livro, eu via o processo de seleção de originais como uma maratona de meritocracia. Só quem merecia estaria numa prateleira, teria seu nome numa lombada, assinaria autógrafos. Quando uma editora aceita o seu original, está te atribuindo valor. Conforme eu ia terminando de escrever meus livros, comecei a ler e pensar mais sobre mercado editorial, mergulhada na preguiça e na inaptidão completa de "me vender" para editoras. Você nunca leu um livro muito ruim? Publicado por uma editora, em papel, com lançamento e tarde de autógrafos? Não falo de um livro que não te agradou pessoalmente, mas um livro ruim mesmo. Mal construído, mal escrito, um livro que te faz pensar "mas quem diabos aprovou essa bosta nesta editora?" Eu já. E comecei a questionar os critérios dessa meritocracia e a me perguntar quem são afinal essas pessoas que escolhem quem merece ou não ser publicado. Critérios que excluem muitos autores novatos e publicam qualquer coisa que seja escrita por alguém famoso (mesmo que seja um livro infantil escrito por uma cantora de MPB ou atriz de novela, porque o nome vende). Isso sem falar em publicações pagas, onde não há seleção ou mérito envolvido, modalidade que tem crescido imenso nas editoras. Ou seja. Se fosse pra pagar (e eu tive esse tipo de proposta de uma editora física), por que eu não publicaria por conta própria, gratuitamente, em ebook?

Não foi uma decisão fácil. Desistir de algo sonhado num velho modelo é doloroso, rescende a fracasso. Mas não é. É coragem. Nos Estados Unidos, o mercado da autopublicação em ebooks é forte e alimenta o mercado editorial tradicional, que procura nos autores independentes bem-sucedidos os seus novos autores. mas nos Estados Unidos as pessoas leem muito ebook, e aqui no Brasil não.

Há aqui um orgulho de se prender ao passado. "No meu tempo era melhor", quantas vezes vc já ouviu isso? Ou mesmo disse? (já escrevi um post sobre isso) E é tão bobo, porque presume que você deve abandonar o livro de papel pelo ebook, ou que você está traindo os seus livros de papel ao ler ebooks. O que é ainda mais bobo. O livro de papel continua tendo inúmeras vantagens. Livros bonitos, ilustrados, livros de arte, livros de consulta, tudo isso é infinitamente melhor em papel. Você não vai comprar a obra completa de Degas em ebook, é claro, e nem mesmo a História da Arte do Gombrich eu compraria em ebook, a princípio (porque pesa pra cacete, então o ebook ainda teria essa vantagem). Mas eu comprei as obras completas de Edgar Allan Poe no original por menos de R$3, sem frete, sem ter que esperar semanas pela entrega. Menos de um minuto, e eu tinha tudo ali. Toda a história, todo o conteúdo. O papel? Que me interessa o papel nesse momento? A história um dia foi oral, as histórias um dia foram contadas, e nem por isso todos somos ferrenhos defensores e consumidores de audiobook, somos? (a mim, me fazem dormir). O que me faz pensar numa frase que vi um dia destes nas redes sociais e que dizia algo mais ou menos assim:

"Tudo o que foi inventado antes de vc fazer dez anos faz parte do mundo, é normal. Tudo o que foi inventado entre os dez e os trinta e cinco anos é inovador e apaixonante. Tudo o que foi inventado depois que vc tem trinta e cinco anos não é normal, é contra a ordem natural das coisas."

Essa carapuça não serve em todo mundo, e eu sempre uso meus pais como exemplo. Papai tem 67 anos, tem twitter (reconheçamos, ele é viciado mesmo nisso), blog (e ele bloga SEMPRE, muito mais do que eu), smartphone, tablet. Minha mãe ainda se dá melhor com email que com Facebook, mas está sempre no whatsapp, resolve toda a vida no internet banking e já leu alguns ebooks no tablet do papai. E por isso mesmo é que eu acho tão triste e limitador ver gente mais nova do que eles, gente mais nova do que eu, aferrando-se ao livro de papel como se nunca tivesse ouvido rádio e visto televisão, como se nunca tivesse falado em telefone fixo e depois no celular, como se nunca tivesse mandado cartas e depois emails.

"Ah, mas não é a mesma coisa!"

Claro que não é, nem é pra ser! Na carta, vc tem a letra da pessoa, mas o email chega mais rápido. A televisão tem imagem, cara, mas nem por isso o rádio morreu, e vc continua ouvindo no carro.

Dê uma chance ao ebook. Não perca oportunidades de ler histórias porque a forma é nova, quando o que deveria te atrair é o conteúdo.

p.s.: Sim. É claro que escrevi tudo isto com o objetivo de fazer vcs lerem meus livros. Eu tenho tanta história pra contar que vcs nem imaginam. Por enquanto são quatro (clique aqui pra ver uma pesquisa pelo meu nome no site da Amazon, com todos os títulos lançados), mas é só o começo. Deve sair mais ainda este ano.



2 de ago de 2014

Liberdade de expressão e redes sociais, ou "Ninguém pediu sua opinião"

Aqui em casa tem o #teamFacebook, representado por mim, e o #teamTwitter, defendido ardorosamente pelo meu marido. Ambos estamos em ambas as redes sociais, mas temos nossas preferências, de acordo com o uso que fazemos da internet. Meu marido consome informação e opiniões. Eu dou minha opinião, escrevo e converso. Sempre tive, na vida, muito pouco interesse pela opinião alheia, sobre as coisas, sobre o mundo e sobre mim. Na internet não tem muita opção. A não ser que você esteja no twitter e não siga ninguém, esteja no Facebook e já tenha tirado todo mundo do seu Feed de notícias, você será invariavelmente alcançado pela opinião alheia sobre tudo.

Muitas vezes isso é algo muito legal. Já fiz amizades por redes sociais ao encontrar pessoas que compartilhavam comigo gostos (costuma ser o primeiro atrativo) e opiniões (só assim é que as pessoas vão ficando na minha vida). Eu gosto de trocar opiniões com essas pessoas sobre assuntos que nos interessam ou descobrir novos assuntos seguindo-as nas redes sociais, porque temos muito em comum e muitas vezes acabo descobrindo algo novo que também me interessa.

Essa é a parte boa.

Como já dizia o Tio Ben, "with great power comes great responsibility", e ele deveria ter acrescentado aí a liberdade também. A liberdade exige responsabilidade. Sim, você tem liberdade de dizer o que quiser nas internetes (e eu tenho direito de ouvir ou não, thanks God for the block). E o grande atrativo e perigo da internet é que, na imensa maioria das vezes, você jamais será responsabilizado pelo que disse. E ultimamente, tudo tem sido confundido com "opinião". E nem tudo é opinião. Existe ofensa e existe julgamento. E existe coisa pior: ameaça e violência verbal.

Vou explicar como se você fosse uma criança de três anos.

Você viu um filme.

Opinião: "Eu achei esse filme mais ou menos. Acho que Beltrana atuou bem, mas Fulano me pareceu meio fraco para o papel. E o roteiro deixou a desejar."

Julgamento: "O filme é horrível, não vão ver essa porcaria. Beltrana está velha e gorda e Fulano nunca mais vai ser o mesmo depois das drogas. Esse povo de Hollywood pode fazer 500 rehabs que não adianta, sempre voltam."

Ofensa: "Essa vaca da Beltrana é uma puta mesmo. Bosta de filme, o diretor é aquele imbecil filho da puta que já tinha acabado com aquele outro livro que eu adorava. E o Fulano, aquele viadinho cheirador,  não merecia aquele papel!"

Deu pra notar? Pode ficar pior.

"Porra, Fulano devia ter levado uma surra só de ter aceitado o papel! Viado! Se meterem uma bala na cabeça dele eu vou achar é pouco por ter destruído meu personagem favorito! Se passar na minha frente agora eu mesmo meto a bala! Morraaaaaaaa!! Bora acabar com a carreira desse filho da puta!!"

"Como é que alguém ainda dá algum papel pra essa ridícula da Beltrana? Ela não se enxerga?? Velha ridícula!! Não admira que o marido tenha trocado ela por outra novinha, essa gorda velha e caída ninguém mais vai querer! ahahahahahaha!"

*suspiro*

Qual a diferença?

Você tem TODO o direito de não gostar de alguma coisa. Não gostou? Não veja mais.

"Mas isso é inofensivo, é só na internet, eu nunca vou ver essa pessoa, menos ainda meter uma bala nele!"

Então vamos transferir o discurso do ator do filme para um jogador de futebol. Agredido por membros de uma torcida organizada, insatisfeitos com o desempenho dele em campo. Ele trabalha, se esforça, ganha o salário dele, deve ser tratado com respeito. Não é pago pra divertir você, não é seu empregado nem seu palhaço. Ele trabalha praquele clube, e se vc gosta daquele clube, bom pra vc, mas isso não lhe dá direito algum sobre a vida do cara. E as merdas que vc escreve sobre ele na internet serão lidas pela família dele, pelos filhos e por ele mesmo.

E vamos transferir esse trashing da rica atriz de Hollywood para qualquer mulher cuja foto fica sendo repassada sem critério nem permissão para ser alvo de piadas de gente que ela nunca viu porque ela é feia, gorda ou qualquer coisa que te desagrada e que vc se dá o direito de achar engraçado. Aí depois todo mundo fica indignado com aquelas tristes histórias de adolescentes que se matam por serem vítimas de cyberbullying. Isso que vc está fazendo É CYBERBULLYING. Aquela pessoa na foto que vc ridiculariza e compartilha, aquela pessoa existe, aquela pessoa tem família, tem amigos, trabalha, estuda, aquela pessoa tem internet, sua besta. Vc acha que ela não vai acabar vendo isso? Ela tem tanto direito a ser feliz quanto vc e não lhe deu o direito de rir dela nem de ofendê-la. Não faça dela uma piada.

Isso não é opinião. Isso é ofensa, e é crueldade. Isso é um perigo.

Eu não quero mais tolerar esse tipo de coisa. Estão avisados.

8 de jul de 2014

como se fosse hoje

lembro como se fosse hoje. meu filho Carlos tinha dois meses. não dormiu durante o jogo, como fizera durante as quartas com Chile, aquela dos pênaltis, lembra? também foi no Mineirão. gritávamos na sala, e ele no quarto não acordou. mas naquela terça quando o Brasil voltou ao Mineirão pra enfrentar a Alemanha, ele não quis dormir. quis estar acordado pra ser testemunha inocente e alheia da pior tragédia vivida pelo futebol brasileiro. a pior. pior que Maracanazo. o Mineiraço me feriu de morte. sinto-me mutilada, ainda. porque é como se fosse hoje. não chorei, atordoada como se... como se eu fosse o meio campo da seleção. surpresa como a própria seleção alemã, que com certeza não esperava por algo assim. sangro ainda, porque é como se fosse hoje. não tínhamos Neymar, quebrado no jogo anterior. não tínhamos Thiago Silva, suspenso. e os que tínhamos... desolados, horrorizados. a torcida abandonando o estádio aos 30 minutos de jogo. "vexame histórico", diziam na tv. eu que amava tanto o futebol. que ainda continuaria amando, é claro, ainda amo. mas uma ferida daquelas? uma chaga funda, pisada, judiada, que ainda sangrava quando ainda era mais e mais machucada? não. daquilo não esqueço, é como se fosse hoje.

29 de mai de 2014

O primeiro mês a gente nunca esquece, mesmo que tente

Hoje meu bebê faz um mês. A primeira semana foi a pior semana da minha vida. A mais intensa, a mais exaustiva, a mais louca. Duvidei de tudo. Da decisão que eu tomara, da minha sanidade mental, da minha capacidade. Nada do que eu sabia antes me valeu, e eu de repente me tornara a maior incompetente do mundo com a missão mais difícil. Pra mim, pra esta pessoa segura e confiante que eu sou, isso era violento demais. Não saber mais o que eu queria, quem eu era, ver perdida minha vida que eu amava, como se alguém a tivesse escondido numa gaveta e eu não soubesse onde estava a chave. Era como um sonho. É, é claro que tinha que ter algo de onírico nisso tudo, né? Eu achava que ia acordar na minha velha vida. E morria de culpa porque desejava isso ardentemente.

Passa, é o que todos dizem. E têm razão, porque passa mesmo.

E tinha aquele bebê. Frágil e lindo. Com um poder avassalador sobre mim, de me conferir uma onipotência ilusória, de olhar pra mim fascinado com seus olhinhos cinzentos e me dizer sem palavras: "por mim, você poderá tudo, e fará tudo. eu confio em você". Mas como, bebêzinho? Como você confia, se nem eu confio? Não sei o que fazer, não posso tudo, vou errar muito e muito, e muitas coisas simplesmente não saberei nem poderei resolver pra você. E pra mim, essa pessoa despachada e resolvida que eu sou, isso é uma provação. Ver você chorar e não saber a razão, e ter que me contentar em acalentar e deixar você chorar até cansar, e talvez, com  sorte, dormir.

Passa rápido, é o que todos dizem.

Mas não têm razão.

Porque hoje parece que faz um século que você nasceu. Aqueles dias em que eu chorava descontroladamente te dando de mamar de madrugada, me perguntando que diabos eu tinha feito da minha vida, eu só queria chorar e dormir, e meu seio doía mais que uma contração, e meu leite era pouco e você nunca ficava saciado, e eu só queria que você dormisse. Tudo isso está imensamente longe. Desde então eu já consegui ir pra terapia duas vezes, ir almoçar no restaurante duas vezes, ir ao salão fazer as unhas, já entreguei umas cinco traduções e já não tremo nas bases quando você chora, acordando, porque já sei como te alimentar e te fazer dormir, e sei que vou dormir também, e adoro te alimentar e rir de gargalhada das tuas caretas quando você mama e ser seduzida pelas carinhas lindas que você faz na hora do arroto.

Tudo passa, bebê. Dorme direitinho que eu ainda quero escrever um pouquinho antes da próxima mamada, tá? Te amo.

9 de mai de 2014

Somos todos mamíferos

Meu filho está tomando mamadeira. 

Que comecem os julgamentos!!

Li um monte de coisas sobre amamentação durante a gravidez. Queria amamentar, nem era apenas um querer, era uma convicção de que isso era o certo, pra mim nem era opcional (PRA MIM!). Me informei, inclusive passei por uma informação não muito promissora, que dizia que plásticas de redução mamária poderiam atrapalhar a produção de leite (e eu fiz uma dessas aos 18 anos), mas não deixei que isso me abalasse. Eu tinha bons bicos, era o que diziam. Eu ia ter bastante leite.

Na maternidade, nada mais que gotas de colostro. Normal, diziam. Agora, além de dizerem que eu tinha bons bicos, acrescentavam que meu bebê era ótimo de mamada. Tinha uma boa pegada, sugava bem, tudo muito verdade! O leite ia descer. Aprendi como segurar o seio, massagear, as melhores posições pra colocar um recém-nascido pra mamar numa mãe obesa. Tudo.

Fui pra casa com meu bebê, que mamava em livre demanda. Era só querer, e eu dava o peito. Era toda hora. A cada dia que passava, mamadas mais longas, intervalos menores. Não conseguia botá-lo pra arrotar, ele continuava procurando peito, resmungando. Insatisfeito sempre. Frustrado, até. Até em casa me diziam que, se ele mamava tanto, é que tinha leite. Mas eu me ordenhava, e só vinham as tais gotas. O bico do meu seio esquerdo (o que tinha um pouco mais de leite) doía terrivelmente cada vez q o bebê abocanhava (mesmo que ele abrisse bem a boca, direitinho, como beicinho pra fora), mas eu dava. Alternava os seios nas mamadas, cada vez mais preocupada, cada vez mais estressada, sentindo que eu não estava saciando a fome do bebê.

A primeira consulta na pediatra estava marcada pra semana que vem, mas eu não me dei por satisfeita. Com uma semana de vida, levei ele lá, nem que fosse pra pesar. Dito e feito: tinha perdido mais peso do que seria aceitável na primeira semana. A médica me ordenhou. "Mas minha filha, você não tem leite!", ela disse. Fiquei aliviada, juro! Alguém via o que eu estava vendo! Uma solução, por favor, não quero que meu bebê fique com fome, porra! Se tivéssemos ido na pediatra só na segunda semana de vida, ele estaria desnutrido.

Cheguei em casa chorando de alívio, meu marido dizia que nunca mais ia duvidar dos meus instintos no que diz respeito ao nosso filho. Ele achava que ia rolar, que ia dar certo, ele achava até que o bebê estava mais fortinho. Eu via que não. Sei que ele queria me incentivar, ele sabia o quanto eu queria amamentá-lo. Dar a primeira mamadeira, ver a cara de satisfeito daquele bebê, enfim com a boca cheia de leite... Chorei de alívio de novo.  Eu nem sabia pra que servia o tal do paninho de boca. Ele nunca sujava a boca, né? Não conseguíamos fazê-lo arrotar. Mas é claro, ele ia arrotar o quê? Agora ele estava de barriga cheia. Dormiu um sono tranquilo, satisfeito, e não o sono agitado, sono de dormir exausto de mamar, como nos seus primeiros dias.

Minha irmã, que tb fez uma plástica corretiva nas mamas há muitos anos, tb não teve leite suficiente para dar aos seus dois filhos. Uma vez comentei isso com uma amiga, qdo eu estava grávida, e ela disse (aí vem o julgamento!!): "ah, desculpa, mas não foi leite o que ela não teve, foi paciência".

WAIT, WHAT?

Meu primeiro sobrinho completou um mês com o peso que tinha ao nascer. Chorava de fome. Paciência? Que paciência se deve ter quando seu filho está com fome?? Sim, existe mulher que não tem leite, e as razões podem ser muitas! Não é tudo fraca-burra (a galera do parto, lembram do post anterior?). Há mulheres que choram porque queriam tanto amamentar seus bebês só no peito e não conseguiram, e além de ficarem tristes e frustradas por isso, temem ser julgadas como mães ruins. Cruel, né?

Eu continuo dando peito quando ele quer, entre as mamadeiras. É o que quero, e é orientação da pediatra. Meu leite não será o alimento principal dele, o que lhe dará "sustança", mas será remédio, vacina, vínculo, calmante, estímulo pro meu leite.

E pra quem diz "ah, e os índios, fazem como? E na idade da pedra, que não tinha mamadeira?". Bebês morreram de fome, vc acha que não?

Mas não o meu bebê. Ele tá dormindo saciado e feliz aqui do meu lado.

Um assunto que é um parto

"E tu já tens uma doula?"

Eu ouvi isso de uma amiga ainda no primeiro trimestre de gravidez e me perguntei se isso já tinha se tornado obrigatório...

Sim, eu sabia o que é uma doula. Mas qualquer pessoa que me conheça o mínimo saberia que eu não escolheria ter bebê em casa, numa banheira, piscina, ou nada semelhante. Eu quero hospital, que tenha uti neonatal e adulta. Eu quero um profissional em quem eu confie. Eu sou alopata, eu quero anestesia.

O fato é que há "causas" que se tornam modas, e isso é um perigo. Redes sociais contribuem enormemente para isso. É verdade que a quantidade de cesarianas injustificadas no Brasil é preocupante. É ainda mais verdade que o caso da Adelir é um ultraje,e que é preciso gritar contra a violência obstétrica.

Porém...

Eu acredito que a mulher é dona do seu corpo. Sou a favor da descriminalização do aborto. Acho, portanto, que a mulher tem o direito de decidir como vai parir (NÃO ME DIGAM QUE EU NÃO PARI PQ FIZ CESARIANA, pra mim eu pari, e foda-se). E não deve ser julgada por isso, da mesma forma como não deve ser julgada pelo que veste ou pra quem ela resolve dar a buceta. O corpo é dela.

Mas a causa do parto natural está na moda. E ativistas sabem ser intransigentes, e como! Há logo muitas que julgam fracas e burras mulheres que preferem cesarianas. A gravidez é um momento de vulnerabilidade, também. Não é justo que se pressione uma mulher grávida a entrar em conflito com o médico que acompanha seu pré-natal e que fará seu parto, mas é o que se faz. Existe essa pressão. Se um médico diz, por causa disso, disso e disso, que a cesariana é mais segura pra vc e pro seu bebê, eu, como leiga, vou discutir como? Com base em quê?

Confiei na minha médica desde o princípio. Ela sempre foi honesta, franca, e confiei na competência dela. Não me arrependo. Tudo correu muito bem na minha cesariana. O bebê tinha duas circulares de cordão, e além disso seria difícil usar o fórceps em mim caso a necessidade aparecesse durante o parto, pois por causa da obesidade eu tenho menos espaço de manobra. E mais: eu perdi um monte de líquido, e no final já tinha mecônio. Cesariana foi a opção melhor na opinião da profissional que me acompanhou durante toda a gestação. A minha opção foi a de confiar nela. E os resultados foram ótimos.

Adianta que venham me dizer agora que "ah, mas dava pra ter sido normal, isso não é motivo" e bla bla bla? Sinceramente, o que uma pessoa que me diz isso esperava que eu fizesse? Ali, perdendo líquido,sem dilatação, ficasse batendo boca com médico? O que eu sempre me pergunto é: o que essas pessoas esperam que a grávida faça? Discorde do médico na hora H? Ou mantenha um conflito com ele durante toda a gravidez?

Meu ponto é: a campanha está sendo feito no público errado. O problema não está nas mães, mas nos médicos. Se há técnicas no mundo para, por exemplo, fazer parto normal até de criança sentada,em pé, do avesso, mas se essas técnicas sequer são ensinadas aqui nas faculdades de medicina no Brasil (eu soube disso lendo algum artigo, não me lembro onde), quem é a mulher maluca que vai dizer pro seu médico: "não, doutor, mas é possível fazer esse parto normal, faça aí!", mesmo que ele nunca tenha feito isso?? Tá doida? Eu quero que ele faça em mim algo que ele sabe fazer!! Então é na formação e na orientação dos profissionais que precisam focar pra reduzir o número de cesáreas injustificadas. Na remuneração justa dos planos de saúde também (15 anos sem reajuste pra parto, gente!! quem vai querer ficar horas esperando menino nascer pra ganhar o mesmo que ganhava no século passado, podendo fazer o mesmo em 40 minutos? não que isso justifique, mas é a realidade!). Não basta informar as gestantes se os profissionais forem ficando todos em desacordo com suas pacientes. Isso só gera estresse nesse período delicado da vida da mulher.

Amiga que defende o parto natural, vc tem todo o direito de escolher como parir. Eu também. Se minha escolha difere da sua, eu não estou errada, não sou fraca nem burra. Eu sou diferente de você. Isso sim é liberdade e respeito.

6 de mai de 2014

Gravidez e obesidade

Este post é o pagamento de uma dívida comigo mesma. Me prometi escrevê-lo no começo da minha gravidez.

Não sou das que sonhou a vida inteira ser mãe. Decidi que queria ter um filho, e fui atrás. Sou obesa, grau 3, e quando fiquei grávida fui numa obstetra que me apavorou. Uma consulta de terrorismo. Nunca tive pressão alta e, naquele dia, no consultório dela, minha pressão (hj desconfio até q mal medida) chegou a 18 x alguma coisa que nem lembro mais. Essa médica já sabia que eu estava tentando engravidar e esperou que eu ficasse grávida para me amedrontar e mais: dizer que não fazia pré-natal de alto risco. Devia ter me avisado isso antes, pois apesar de eu ser uma gorda de excelente saúde, toda gravidez na obesidade tem risco. Ela me passou remédio pra pressão logo de cara e não me pediu nenhum exame. Claramente lavou as mãos. Nunca mais voltei nela.

Naquele momento tive tanto medo e me senti tão insegura que fiz algo que quase nunca faço: procurei na internet um relato de alguma grávida obesa que tivesse tido uma gravidez saudável e de sucesso. Não encontrei! Tudo sobre gravidez e obesidade só falava dos riscos, só metia medo. O único relato positivo que achei era de uma ex-obesa, q engravidou pós-Bariátrica. Não me interessava. Me prometi que, se tudo desse certo, escreveria este post para quem precisasse.

Depois de um pouco de peregrinação, encontrei minha obstetra: dra. Lílian Thomé, recomendo muito! (estou em Belém - PA) Com acompanhamento também de nutricionista, tive uma gravidez saudável e meu bebê nasceu bem, nada de bebê enorme, não tive pressão alta nem diabetes gestacional. Se vc é obesa e está grávida, não se apavore! Seja responsável e tenha confiança, vai dar certo, não é nada demais.

Vou contar algumas coisas sobre a minha gravidez que acho que podem ajudar:

- Pressão

Eu medi minha pressão todos os dias durante o primeiro trimestre. Nunca mais deu alta, ainda bem que nunca cheguei a tomar o tal do remédio pra pressão. Durante o segundo trimestre, medi a pressão em média 3 vezes por semana. No último trimestre, novamente todos os dias. Minha pressão se manteve durante toda a gravidez entre 9x5 e 11x7. Só no consultório é que dava 12x8. Efeito jaleco: eu tenho!

- Alimentação

Reduzi o consumo de carboidrato drasticamente durante minha gravidez, e consumi muitos laticínios, proteína, verduras e no começo muita fruta também. Comia carboidrato no café da manhã nos 5 primeiros meses de gravidez, mas a partir do sexto mês nem isso. Açúcar não fazia parte da minha dieta também, e meu adoçante era apenas a sucralose.

Até o sétimo mês, isso aí se referia à dieta rotineira. Numa festa ou num restaurante eu abria exceções, sim. Depois explicarei porque isso mudou no último trimestre. Tomei café normalmente durante toda a gestação (só evitei café puro nos dias em que estava com muita azia), mas NÃO TOMEI REFRIGERANTE NENHUMA VEZ, ok? Evitei comida industrializada o quanto pude.

- Intercorrência: incisura bilateral nas artérias uterinas

No começo do sétimo mês, um US com doppler identificou que eu tinha incisura nas artérias uterinas, nas duas. Isso significava que o sangue passava com dificuldade para a placenta. Uma espécie de "refluxo", um passinho pra trás que o sangue dava. Isso podia causar:

Em mim: pressão alta.
No bebê: subdesenvolvimento.

Adianto que nenhuma das duas coisas aconteceu. Adianto que a obesidade NÃO CAUSOU esse quadro. É genético. Meu sangue deveria ter afinado durante a gravidez e não afinou. A obesidade era fator de risco para a pressão alta, isso sim. Mas nunca tive.

O que fizemos a respeito:

- Acompanhamento com US Doppler quinzenal.
- Exames de sangue e urina frequentes. O exame de Proteinúria, por exemplo, fiz duas vezes, com bons resultados. Se eu estivesse perdendo muita proteína na urina, isso poderia configurar uma quadro de pré-eclâmpsia. Isso não aconteceu.
- Monitoramento da pressão, às vezes até 3x ao dia. Teve um dia que fiz meu próprio mapa de pressão, medindo de 30 em 30 minutos. Tudo normal.
- Drenagem linfática.
- Caminhadas leves.
- Minha dieta no último trimestre: P R O T E Í N A.
Não demos a mínima para calorias, entenderam? Eu comi muita muita carne, ovo, leite, queijo. Comi o quanto quis, até ficar satisfeita. Sem racionamento de quantidade. Matei todas as fomes.
Substituí o sal comum por sal de potássio.
NADA DE AÇÚCAR. Nadinha mesmo, zero, zerinho.
NADA DE CARBOIDRATO. Farinhas, leguminosas, tudo cortado. Cenoura e beterraba, só cruas e raladas (e eu só comia comida crua em casa, desde o começo da gravidez, por causa da toxoplasmose). Eu tinha direito a um pouco de aveia.
FRUTAS CONTROLADAS. Três doses de fruta por dia, apenas.
Essa dieta tinha por objetivo controlar inchaço, pressão e ajudar a afinar o sangue.
- Medicação anti-trombose.

O bebê cresceu bem, o parto não foi adiantado, nasceu a termo, e eu não engordei nada durante a gravidez (o que quer dizer q depois do parto estou pesando menos do que quando fiquei grávida). Meu filho nasceu com 37 semanas (a bolsa rompeu), 48cm e 2.850g, de cesariana (ele tinha duas circulares de cordão) e minha cicatriz está sequinha e muito boa.

Minha irmã também tem duas experiências de muito sucesso de gravidez na obesidade.

É POSSÍVEL.

DÁ CERTO.

NÃO É TÃO DIFÍCIL QUANTO PARECE.

Fique tranquila, não se deixe apavorar, mas seja responsável e consciente de que vc deve ter mais cuidados.

Espero que a internet faça chegar este relato até os olhos de quem precisa, de quem está com medo como eu estava em setembro do ano passado. E agora estou bem e meu bebê também! :)

31 de mar de 2014

Todos somos tolerantes

Eu me considero feminista. Não é algo que nasce na gente, muito pelo contrário. Nascemos TODOS numa sociedade onde manda o homem, onde a mulher é segunda classe, onde os papeis são SIM AINDA repartidos desigualmente pois há uma diferença de importância e hierarquia entre o papel da mulher e o papel do homem. Para minha sorte, nasci numa família onde mulher tem vez e voz (somos muitas) e nunca vi nem vivi situações em que fui discriminada nem diminuída por ser mulher. Minha mãe sempre trabalhou fora e por muito tempo ganhou mais do que meu pai. Ele nunca demonstrou ressentimento com isso e eu e minha irmã não fomos criadas "pra casar". Fomos criadas pra fazermos o que quiséssemos. Ambas casamos. Eu trabalho e minha irmã é dona de casa. E ela teve que enfrentar um tanto de preconceito da nossa geração por causa dessa escolha. Não esqueça que isso também é cruel, cada um faz o que quer de sua vida, e quando vc critica uma mulher que escolheu não trabalhar fora e ser dona de casa e mãe você também está corroborando a ideia de que essa é uma função "menor". E não é.

Anyway. Acontece que dias atrás eu li este post do Sakamoto e confesso que num primeiro momento me perguntei se a moça não tinha sido meio agressiva demais na resposta. Não que ela não tivesse razão, mas porque eu às vezes acho que dependendo do modo como você responde a esse tipo de comentário ("Já pode casar!"), essas coisinhas repetidas há séculos, sem pensar, você pode ou fazer a pessoa parar pra pensar no que disse ou fazer a pessoa reagir com uma agressividade que nem estava presente de início, achando que vc é chata e cricri e tal. Não é questão de q vc tenha q evitar passar por chata. É questão de resultado. De acreditar no seu poder de fazer pelo menos aquele cara parar pra pensar uma vez só nessa frase que ele repete como papagaio. É o que eu penso, nem sempre o que faço.

Mas é difícil. Porque dói na alma (porque pra mim nunca doeu na carne, o que é sorte minha) confrontar uma cena de machismo corriqueira como essa, essas coisas que vc ouve da sua tia quando leva uma sobremesa gostosa pro almoço de família, que nem dói, mas vai criando ninho, vai se repetindo, com outras cenas. Estupros em transporte público, coisa de quadrilha, gente que se organiza pra violentar mulheres em trens e metrôs. E a maldita pesquisa do Ipea, noticiada à exaustão, a exposição de uma verdade medonha que vemos e ouvimos todo santo dia, no salão, em família. Mulher que não se dá o respeito. Mulher pra casar. Mulher que "tá pedindo".

Mulheres são vítimas de julgamento CONSTANTE. O tempo todo, em todos os aspectos. Como falam, como se vestem, como se sentam. Quando fiquei grávida, eu queria muito ter uma menina. Eu coleciono bonecas e, apesar de não ver problema algum caso meu filho queira brincar com minhas bonecas, julguei que uma menina poderia aproveitar melhor as centenas de Barbies que tem nesta casa. Daí que estou esperando um menino, e não foi uma decepção, de verdade. O pior foi a quantidade de vezes que já suspirei aliviada por saber que, SÓ POR SER MENINO, eu vou ficar mil vezes menos preocupada quando for andar de ônibus, andar à noite sozinho. Não vou ter que ensinar a "fechar as pernas" quando estiver de saia. Ficar ensinando a se cobrir, vestir uma blusa no calor, mesmo quando os meninos, todos ainda crianças, meu deus!, estão só de shortinho. Que mundo, meus amigos. Que mundo. Por isso é que discordo daquela bonita frase "não se nasce mulher, torna-se". Não. Você nasce mulher, sim. É a sua primeira condição nesta sociedade, o seu gênero. E a letra dos seus cromossomos determina o perigo que você corre, a forma como será vista, do que será cobrada, o que esperarão de você. Te joga em estatísticas assustadoras, te faz ouvir merda pela vida afora e, invariavelmente, te coloca no papel de repetir muita dessa merda que te oprime com a tua própria boca, porque a gente não nasce toda cheia de senso crítico, e aos 12, 15 anos o que vc faz mesmo é reproduzir muito do que vc escuta dos adultos.

Em algum momento da minha vida eu certamente "elogiei" alguma mulher que cozinhava bem dizendo que ela "já podia casar". Peço desculpas a ela, e a mim, que também sofri ao dizer isso. Com certeza eu disse isso antes de casar. Eu não sabia nem fazer arroz. Meu marido nunca achou que eu tinha obrigação de saber fazer arroz. Nem de fazer o arroz. Ele fazia. Minha sogra foi dona de casa a vida toda, meu sogro da PM. Todas as desculpas pra um marido de cabeça tacanha? Pois não é.

O que, SIM, é sorte minha também. Não sejamos hipócritas. Um homem que se cria fora do machismo é uma raridade, e isso não é "culpa deles". A reprodução do discurso da sociedade machista, mesmo quando um discurso não violento, está em todas as bocas, não dá pra excluir todo mundo. Amar um homem, casar com ele, também é dar a ele a oportunidade de VER uma mulher, de VIVER com uma mulher. Uma mulher que vai sangrar, gerar filhos, que vai gostar de sexo (e ele vai adorar isso, nunca vai achar que é desaconselhável e despudor!), que talvez adore futebol (meu deus, dei muita sorte com essa mulher!) e discuta política, que elogie a comida dele a ponto de ele se sentir orgulhoso e se permitir gostar de fazer isso, que lhe bote em pé de igualdade nas escolhas e decisões sobre o filho e a casa, que lhe traga suas questões e reclamações do trabalho, como as que ele também tem, e que ao longo dos anos deixe muito claro que o universo feminino não é o que ensinaram pra ele. É mais amplo, menos limitado, mais interessante.

Criar homens para o feminismo é uma missão muito muito recente, talvez só a minha geração é que já esteja atenta a isso. Porque ensinar a uma menina o que é o feminismo, visto que ela é quem cresce sob a opressão, é mais fácil. Ela enxerga. Ela tem medo. Ensinar ao opressor sobre a opressão é muito mais difícil. A vida dele é mais fácil. Ele pode usar camisa ou não. Ninguém vai achar que ele é um despudorado. Ele pode se barbear ou não. Ninguém vai achar que é falta de higiene. Nunca ninguém disse pra ele fechar as pernas quando as cruza. Nunca ninguém disse pra ele que "pra ficar bonito tem que sofrer mesmo", enquanto lhe arranca um bife da unha ou a cera quente da virilha. Como é que ele vai entender? Como é que ele vai entender que isso (fazer unha, depilar) não são exatamente coisas que escolhemos fazer? Na melhor das hipóteses, são coisas que escolhemos NÃO fazer, mas fomos ensinadas que era preciso fazer, que fazia parte do nosso pacote. A gente sangra todo mês, e isso é nojento e cheira mal e vc nunca deve ficar falando sobre isso. É feio mulher fumando, falando palavrão. Pelos pubianos aparecendo pelos cantos do biquíni, que horror! Se for da sunga, tudo bem. Aquela trilhazinha que chamam até de "caminho da felicidade", porque pica todo mundo quer, né? Claro.

Aí aqueles mesmo homens que já um dia disseram sobre alguma feminista chata (gente, existe feminista chata, ok?) "isso é falta de pica" ou "é mal-comida", ficam genuinamente chocados com uma pesquisa feito essa do Ipea. Eles nunca estupraram ninguém! Isso é crime, porra! É onde se traça o limite. Na lei. (Porque não existe lei que o impeça de encher o saco da namorada ou da irmã porque a saia dela é curta, né?) E é quando começam a surgir frases como "isso não é homem de verdade, é um monstro,é um bicho, é um doente"... Coitados. É o desespero desses homens, a necessidade urgente de se dissociar dos que praticam essa violência última, o estupro. "Não, eu não sou como eles. Eu nem mesmo corro o risco de um dia ser um deles, porque são doentes, têm problemas, são animais". É o mesmo que ocorre com o ser humano em geral diante de outras violências chocantes, diante de assassinos cruéis, mães que abandonam ou torturam filhos. A sentença é rápida, e provoca alívio: "um monstro". Você retira a natureza humana daquele sujeito e de repente se sente seguro. Você nunca fará nada daquilo.

Mas talvez você veja um vídeo pornô que contenha violência contra a mulher. Talvez você fique excitado, ainda que à sua revelia. Talvez você bata uma punheta, talvez até chore de culpa no chuveiro depois disso. Não é melhor você enfrentar? Entender que a tolerância à violência contra a mulher está dentro de todos nós? De você, de mim? Só assim temos alguma chance de erradicar a tolerância e tornarmo-nos, finalmente, completamente intolerantes.

26 de mar de 2014

Uma nostalgia tão cega

O presente tem sido sempre tão cruel consigo mesmo. Incomoda-me muito o excesso de nostalgia, algo recorrente sempre, mas tão difundido nas redes sociais. Os antigamentes sempre parecem melhores do que os hojes, e não entendo por quê. Você veja bem o filme Meia-Noite em Paris, é bem isso, né? Cada qual achando que o melhor dos tempos é um tempão atrás. Pipocam no Facebook coisas do tipo "se vc fez isso vc teve infância", acompanhados de comentários do tipo "as crianças de hoje blablabla-qualquer-merda".

Será que vc se dá conta do quanto está sendo cruel? Não só com as crianças de hoje, decretando que elas não têm infância ou têm uma infância de segunda categoria, se comparada à sua. Mas com vc mesmo. Com a sua idade adulta, que por acaso é a fase da sua vida em que vc há de passar mais tempo. E por quê? Pra quê?

Por alguma razão foi ficando gravado nas leis tácitas desta sociedade que a infância deveria ser encarada como uma fase doce e encantada, e a transição para a idade adulta deveria ser um conjunto de desilusões e endurecimentos de alma e caráter. Porque fomos convencidos de que era preciso abandonar certos gostos e prazeres infantis para nos tornarmos adultos, e então é claro que isso gera nostalgia. Porque em determinado momento nos fizeram sentir vergonha de brincar de boneca, não era mais coisa pra nossa idade. Ou de chorar quando dói, porque "vc já é uma mocinha/um rapazinho". A gente vai engolindo isso e vai achando a vida uma merda, e de repente a infância parece tão distante e tão linda e perfeita.

Só que, pra começar, não era. Do mesmo jeito que na idade adulta, a gente era obrigado a fazer coisas que não queria, como ir à escola, tomar banho, ir dormir cedo, parar de brincar pra fazer a lição, tomar injeção. A gente sofria com as desilusões e dores da vida, como separação dos pais, morte dos avós ou animais de estimação, briga com amiguinhos, um brinquedo favorito quebrado ou quando nosso time perdia vergonhosamente na escola. E se tudo isso era compensado pela magia da infância, eu vos pergunto: onde morava essa magia da infância?

Dentro das nossas cabeças. Na nossa visão do mundo. Na nossa esperança, na nossa fé nas pessoas, nos nossos sonhos.

Quem te mandou abrir mão de tudo isso? Quem te disse que vc não tinha mais direito a sonhar acordado, a fantasiar a realidade à sua volta? 

Você tem direito. Dentro da sua cabeça, ninguém manda, só você. E se hoje você tem que trabalhar e pagar contas, lembre-se de que, muito mais do que na infância, os sapos que você engole são muitas vezes decorrências de escolha que VOCÊ  fez, e não que alguém fez por você, o que torna (ou deve tornar) o sapo bem mais deglutível. Um relacionamento, um emprego, o que seja. Na idade adulta a sua escolha tem papel muuuuuuito maior na sua vida do que tinha quando vc era criança! Hoje você pode conhecer uma nova cidade e pensar "cara, que lugar fantástico, eu queria morar aqui!", e isso PODE acontecer. Vc não tem q pedir permissão a ninguém, vc tem apenas q se programar, se planejar, estudar, trabalhar, fazer o que for necessário, mas vc pode. Ninguém te impede.

Vc pode brincar, vc pode sonhar, vc pode comer brigadeiro se estiver doente, chorar de dor e de tristeza e de vergonha, vc pode. Reveja tudo o que a idade adulta te "tirou", reflita se vc realmente tem q viver sem isso. Se devolva. Se devolva uma boneca, se devolva um desenho animado. O que vc tinha de seu quando era criança era seu, não era emprestado, vc não tinha que devolver a ninguém. E creia, nunca devolveu. Tá tudo aí dentro, ainda. Saudoso e nostálgico, só esperando por você.


15 de mar de 2014

Os livros lidos em 2013

Devendo horrorosamente a lista de livros lidos em 2013, hein? Então vamos lá!

Como sempre, devo avisar que não está exatamente na ordem da leitura, porque às vezes eu esquecia e, bom... Vcs sabem como é.

1) Fifty Shades Darker
2) Fifty Shades Freed
Eu quis terminar de ler a trilogia, até porque não achei o primeiro ruim, achei legalzinho. Mas aí começou a ficar ruim mesmo. O terceiro é totalmente desnecessário.

3) Bêbado Gonzo
Crônicas de um jovem autor paraense, Anderson Araújo. Interessante!

4) A esposa do veneziano (R)
Releitura, porque sim, porque Nick Bantock.

5) Um brinde de cianureto
Um da Agatha que curti demais!!

6) La folle de Maigret (G.Simenon)
Meu segundo do Maigret. Muito bom.

7) A mão misteriosa
Agatha. Já conhecia a história, já tinha visto o filminho, mas fiquei mais envolvida com os personagens principais no livro. Muito legal!

8) Henry the Fifth
Minha promessa eterna de ler um Shakespeare por ano. Não cumpro, é claro, mas este ano, por motivos de "escrevendo Jesse & Catarina", li Henry The Fifth. Ter um personagem que é ator & inglês eleva seu nível... :P

9) The Cuckoo's Calling
O LIVRO DO ANO.
O que é que eu vou dizer deste livro além de JOANNE, YOU ROCK!!? A trama já é boa, mas o estilo é ainda melhor! E a velocidade? E a construção de personagens?? E a construção das relações dos personagens?? Cormoran Strike virou minha absoluta obsessão, eu quase me dispus a escrever fanfic dele, pra ver o nível da minha doença.

You go girl! I mean...*ahem* Mr. Galbraith.

10) Casual Vacancy
Que livro excelente!! Ainda estamos falando da mesma pessoa?? Ah, acho que sim. Versátil, essa danada! Denso. O começo do livro não é fácil, é meio arrastado. Bronqueei um pouco com o modo como ela foi apresentando os personagens, achei meio confuso, não facilitou o processo mental de ir caracterizando cada um (ou cada lar/família), ficou todo mundo numa massa muito homogênea. De certo modo isso foi interessante mais pra frente, porque fica bem claro que num microcosmo como aquele, na fachada todo mundo realmente se parece, mas como sempre Joanne constrói personagens BRILHANTEMENTE. Do meio pro final não se larga mais o tijolo (o meu era de capa dura, socorro!), e o final é de socar o seu estômago. Não perca. Em pt: Morte Súbita.

11) Métronome
Gente, realmente eu não sou talhada pra não-ficção. A lerdeza com que li esse delicioso livro do Lorant Deutsch não deve depor contra o livro! É muito legal, sim, acreditem! O estilo é leve e gostoso de ler. Li algumas críticas à "pesquisa" dele (o livro, caso não saibam, conta a história de Paris através das suas estações de metrô), mas acho q se deve encarar como obra de um apaixonado diletante. Ele não é historiador. Em pt: Próxima Estação, Paris.

12) Arsène Lupin Gentleman Cambrioleur
Mais um que li por causa do Jesse. É o primeiro do Lupin, e é sensacional!! Já é um dos favoritos.

Oh wait. Quase todos dele se tornam meus favoritos... Acho que só o da Cagliostro não me pegou tanto.

13) Café preto
Da Agatha. Eu gostei muito de algo nesse livro, acho que é do clima, do ambiente, não sei especificar. Mas a trama não me cativou. É curtinho.

14) Enquanto houver luz
A verdade é que raramente gosto das coletâneas de histórias curtas da Agatha. Só algumas do Poirot.

15) O homem do terno marrom (R)
Eu tava doente e reli meu favorito da Agatha, simples assim.

16) Cartas na mesa
Já tinha visto o filme, e o revi logo depois. Ambos bons, filme e livro.

17) Um gato entre os pombos
Não é dos meus favoritos da Agatha, não...

18) Sherlock Holmes (complete works)
Terminei minha releitura das obras completas a tempo da nova temporada de Sherlock! Acho que nunca tinha relido os últimos contos. E já quero reler tudo de novo... Eu realmente AMO Sherlock.

19) Vida encantada (R)
20) As vidas de Christopher Chant (R)
21) Os magos de Caprona (R)
Resolvi incluir Os magos de Caprona nas minhas releituras esporádicas de Diana Wynne Jones. Me fez decidir que realmente preciso ler outras coisas dela, e já estou providenciando isto em 2014. :)

22) Toda sua (Sylvia Day)
Daí que duas amigas que tinham lido Fifty Shades disseram que essa trilogia Crossfire era nesse estilo porém melhor. Achei horrível. Não consegui nem sentir empatia pelos personagens. Sabe quando vc não tem vontade de continuar lendo nem pra saber o que acontece com eles? Eu pouco me importei se iam continuar juntos ou morrer de acidente de ônibus. Mal dá pra dizer que li esse livro. Pulei um monte de coisas, só li mesmo as cenas de sexo. Boas.

23) Stille Nacht
Livrinho adaptado de alemão. Cabô meu curso. :(

24) Les bagarres du Petit Nicolas
Cada vez mais próxima do fim, e portanto mais próxima de começar a reler Petit Nicolas!

25) O diário de Pilar na Amazônia
26) O diário de Pilar no Egito
Dois bons infantis nacionais.

É isso aí, gente. Pro tanto que escrevi em 2013 até que eu li bastante, mais do que eu imaginava. Não esperem muuuuito de 2014, não. Vou depender de negociações com meu bebê que vai nascer mês que vem. :D

10 de mar de 2014

O oitavo mês

Eu não sei se vocês sabem, mas eu tô grávida. Oitavo mês. À parte todo o "oh my god cacete já é mês que vem porraaaaaaa!", como era de se esperar, pensei algumas coisas novas durante esse período da minha vida. Como EU esperava, pensei coisas novas que continuavam cabendo na MINHA cabeça. Ao contrário do que muitos esperam, gravidez não é lobotomia. Continuei sendo eu, não estou vomitando arco-íris nem chorando glitter.

Uma das coisas que eu mais tenho pensado é como é chato que algo da sua vida PESSOAL tenha que ser SOCIAL. Social como um patamar, sabe? Como uma conquista, um degrau, um status, sei lá. Não sinto que tenho que compartilhar mais com todo mundo os sentimentos em relação à minha gravidez do que os sentimentos em relação, por exemplo, ao meu casamento, minha família. Mas há uma expectativa social em volta. De que minha vida gire toda em torno dessa "bênção", desse "milagre", desse "sonho". Uma das grandes dificuldades das pessoas é justamente entender que ser mãe não é um sonho para todas as mulheres. Há as que nunca sonharam com isso, e não se tornaram mães. Há as que não sonharam e acabaram sendo mães por acaso, sorte, azar, sei lá, pela vida, pelo sexo. Há as que não sonhavam com isso, mas decidiram fazê-lo. Sou eu. De um casamento muito legal, de um homem que amo, resolvi ter um filho. Que tal se fizéssemos isso? Que tal se incluíssemos essa aventura na nossa vida? Bora se meter nisso? Bora! Foi assim comigo. E de cara tinha gente que ficava até na dúvida se eu estava realmente feliz por estar grávida, porque não anunciei da maneira como se espera que seja anunciada uma gravidez, com frases do tipo "sou abençoada! uma vida floresce dentro de mim!".

Gente. Sou eu ainda, ok? Contei no Facebook por meio de uma piadinha tola e uma referência nerd, nunca mudei meu avatar pra uma barriga ou um sapatinho, não paguei book, não contratei arquiteto, não estou contando cada semana nem relatando cada chute. Conto algumas coisas, até faço perguntas aos universitários, faço piadas e reclamo (não é pra isso que serve a internet??), porque estar grávida é muito legal e uma das coisas mais doidas que já vivi, mas super tem montes de partes chatas, incômodas e até dolorosas. Basicamente, como eu já vos disse aqui algumas vezes: continuo sendo eu.

Não critico quem faz essas coisas, de modo algum. Pra muita gente é mesmo um sonho, então ótimo! Tem que curtir ao máximo o momento em que você realiza algo que sempre quis fazer. Só não faz sentido achar que esse é o único modelo aceitável, o único comportamento esperável. Eu nem entendo direito que me deem parabéns por estar grávida. Tá, eu entendo o que querem dizer, estão me desejando felicidades e saúde (quero ambas, podem me desejar!), mas se vcs pensarem bem não é exatamente uma conquista impressionante ter prole, fêmeas de todas as espécies fazem isso o tempo todo desde que o mundo é mundo. É a natureza. É muito muito legal, sim! Mas, minha gente, é natural. Não acho que uma mulher é menos mulher ou menos completa se nunca for mãe. Mulher tem que ser mãe se quiser ser mãe. Não pode ser obrigação.

E aí tem uma coisa que vem povoando minha cabeça desde o começo da gravidez. Estar grávida me fez ainda mais defensora da descriminalização do aborto. Mulher nenhuma merece ter de levar adiante uma gravidez fruto de violência, desrespeito, desespero, desesperança. Mulher nenhuma merece seguir uma gravidez já pensando em jogar uma criança no lixo. Carregar dentro do seu corpo por quase um ano a lembrança e o DNA de um momento horrível, de um homem horrível, NÃO. Ninguém deve ser obrigada a passar por isso. Porque, minha gente, há risco envolvido, em qualquer gravidez. Tudo vai bem e, de repente, pá! Aparece uma coisinha de nada num exame, e aí é repouso, dieta, remédio, vc fica com medo pela sua vida, pela vida do bebê. Passar por isso sem querer? Não, ninguém merece.

A quem interessar possa, sim, estou feliz, curiosa, cheia de medos e expectativas, dúvidas, desejos, vontades, e, na fase atual, sendo chutada vigorosamente pelo menino que deve estar habitando esta casa - do lado de fora da minha barriga - a partir do final do mês que vem. Conquanto seja bacana trocar algumas experiências com quem já passou por isso, cada experiência é única,sim, porque cada grávida é uma pessoa individual.

É, gente... Mãe NÃO é tudo igual. ;)

8 de mar de 2014

pode me dar parabéns - dia internacional da mulher


o dia internacional da mulher não tem que ser feliz. ele tem é que ser desnecessário. mas não é.

vai ser desnecessário quando todos entenderem que homens não têm o direito de não deixar a namorada ou mulher cortar o cabelo e usar saia curta. que mulher não tem que "se dar ao respeito". que uma mulher não vale menos pela roupa que usa ou pelo jeito que dança (sim, vc tem o direito de achar a roupa feia, só não tem o direito de desrespeitá-la ou julgar seu caráter por isso, ok?). vai ser desnecessário quando vc não tiver mais medo que sua filha saia sozinha na rua do que seu filho. vai ser desnecessário quando vc não brigar com sua filha pq ela tava se agarrando com o namorado, enquanto que seu filho pode fazer o que quiser com a namorada dele. vai ser desnecessário quando meninas pequenas não tiverem que ficar ouvindo toda hora dos pais "fecha as pernas, menina!" quando estiverem de saia.

quando meninas não forem mais vendidas, exploradas sexualmente, exploradas como domésticas sem idade nem direitos. quando não morrerem mais pelas mãos dos seus companheiros por serem mulheres. quando uma mulher não tiver que esconder quantos parceiros já teve pra não passar por puta, enquanto um homem pode se vangloriar da sua lista. quando uma mulher não for julgada por outra mulher porque a casa está suja ou a roupa do marido está mal passada. quando a sociedade toda entender que pai não "ajuda" com as crianças, porque os filhos tb são dele e não é favor. que marido não "ajuda" com as coisas da casa, porque também mora lá e não é favor.

o dia de hoje é pra lembrar que tudo isso existe, que as conquistas foram muitas mas ainda insuficientes, que é preciso estar atenta e forte, que é preciso educar as crianças, meninos emeninas, para uma sociedade mais justa com todos os gêneros. não dê parabéns porque as mulheres são "emotivas", "delicadas", "sensíveis", "amorosas", "lindas". as mulheres são o que quiserem ser. estereotipá-las é diminuí-las. dê parabéns porque nasceram mulheres e enfrentam sem perder a vontade um mundo que não é feito pra elas, embora seja igualmente feito por elas.

1 de fev de 2014

Vocês viram a novela ontem?

Tão comum essa pergunta... "Viu a novela ontem?"

Pois eu espero que vocês tenham visto. Ontem dois homens se beijaram na boca pela primeira vez numa novela brasileira.

Isso é imenso. A novela, especialmente a das 8, que virou a das 9, é o carro-chefe da ficção popular neste país. Se você tem algum apreço pelo objetivo de inserir definitivamente a homoafetividade no contexto do "normal" nesta sociedade, você com certeza torceu pelo beijo de Félix e Niko, como eu torci, mesmo sem ter assistido Amor À Vida.

[Entre dois homens. Entre duas mulheres já tinha acontecido no SBT, mas de verdade vcs sabem que existe uma diferença gigante de preconceito, né? Sem falar de impacto, líder de audiência, novela das oito. Então tá. Sigamos.]

Folgo em dizer que a maioria avassaladora dos comentários nas redes sociais foram de "viva!!" até "que lindo!!" passando por "finalmente!!" e alguns "shoray!". Porque foi mesmo muito, muito bonito, emocionante, coroando o trabalho maravilhoso de Mateus Solano que, pelo que sei, foi quem salvou a novela. Tenho uma quantidade descomunal de restrições ao trabalho do Walcyr Carrasco nessa novela, porque no que tange a trabalhar pelas minorias, ele prestou um desserviço nível Zorra Total com as mulheres obesas, com aquele personagem da Fabiana Karla, e eu faço parte dessa minoria muito discriminada. Mas reconheço que, não só pelo beijo no final, mas por toda a criação e trajetória do personagem Félix, ele merece o reconhecimento e o aplauso.

Como sou uma pessoa sortuda e bem-relacionada, não vi um único comentário homofóbico nas redes sociais!  Mas gostaria de comentar algumas reações de pessoas não homofóbicas que me deixaram incomodada por uma série de razões.

1) Teve gente que disse "Ah, mas essa novela foi horrível!"

E foi mesmo! Mas novela ruim tem toda hora, beijo gay na tv aberta em horário nobre, foi a primeira vez! Vc queria que tivesse sido numa produção de alta qualidade cultural? Vá ver o Canal Brasil e não vai faltar cena gay. É aqui que tá a transformação, meus queridos, é entretenimento popular, não é cult. É um casal homoafetivo sendo levado romanticamente a sério na rede aberta, e não virando chacota de novela das 7 ou Zorra Total.

2) Teve gente que disse "Não entendo essa polêmica, acho muito normal dois homens se beijarem"

E eu quis bater na cara da pessoa. Parabéns pra vc por não ser homofóbic@, mas sua atitude forçadamente cool está lhe cegando para o problema que você julga não existir. Como muito bem disse o editor do site Os Entendidos na página do Facebook, "se existia a chance de não acontecer, é porque o acontecer faria uma transformação". Você vê dois garotos se beijando no restaurante, na lanchonete, na escola, no ponto de ônibus com tanta frequência e naturalidade quanto um casal garoto + garota? Não, né? Então não é "normal", não pra sociedade em geral. A luta é pra tirar os gays da condição de exceção, esperteza, então sai pra lá com a sua displicência descolada que vc não entendeu nada da luta e só tá atrapalhando.

Minha única ressalva ao status d'Os Entendidos é quando eles acrescentam ao "faria uma transformação" a pequena frase "e fez". Infelizmente, queridos amigos desse excelente site, não sabemos ainda se fez a transformação. Saberemos no futuro, se não demorarem dez anos para mostrar um próximo beijo gay, sempre em último capítulo, com medo do ibope cair. Saberemos quando tiver beijo gay na Malhação, meu próximo objetivo global! ahahahaha! ;)

3) Teve (MUITA!!) gente que disse "Só isso?? Que beijo chocho, nem foi de língua!"

E eu igualmente quis bater. Eu sou bem implicante com gente que se engaja numa determinada luta com tanto sangue nuzói que acaba demonstrando mais interesse em chocar o lado oposto do que realmente conquistar um avanço na situação que tenta mudar. Na minha modesta opinião, o objetivo não é travar uma guerra com homofóbicos. É esvaziá-los! De argumentos, primeiro, e depois esvaziar suas fileiras mesmo! Eu não quero arrancar a pele de cada um dos homofóbicos (de alguns eu quero, sim) com óleo quente. Eu quero que eles não existam mais! É preciso entender que é muito difícil extrair o preconceito que já está instalado numa pessoa (mas não é impossível!!), então a verdade é que o grosso do avanço será feito em gerações. Se a geração do meu filho vir suficientes vezes gays e lésbicas namorando na tv, no cinema, no shopping, em qualquer lugar ou situação, assim como qualquer casal hétero, e sem ser perturbados, eles não terão base pra achar que isso é "errado" ou "anormal". Isso vai ser a (r)evolução.

Nota pessoal: uma vez,ainda morando em SP, eu estava esperando a Parada Gay passar descendo a Consolação pra poder ir pra casa. Passou uma moça com uma camiseta que lia "Sou bi". Meu marido me perguntou se eu gostaria de ter uma camiseta daquelas. Eu disse que não. Que o que eu queria mesmo era viver num mundo em que ninguém tivesse que vestir aquela camiseta. Ser "obrigado" a ter "orgulho" da sua orientação sexual, a meu ver, já é uma violência. Isso deveria ser completamente natural. Ninguém deveria ter nada com isso, não deveria ser uma "questão" fulana ser bi ou lésbica ou fulano sair do armário.

É preciso também entender que, no caso específico de uma novela das 8, estamos lidando com um produto que vende, talvez o melhor produto deste país. Esse produto tem um público, e é muita ingenuidade achar que a Globo até hoje não tinha colocado um beijo gay na novela porque é boba-feia-chata & homofóbica.  Nunca tinha colocado porque ainda julgava que o efeito seria mais negativo do que positivo com o seu público. Apenas isso. Colocou quando sentiu que o clima estava lá, propício, que a situação exigia, e que poderia, enfim, agradar o novo público que exigia o beijo gay sem repelir o público antigo, porque já estavam mesmo todos apaixonados pelo Félix. Genial, não? Ainda bem! Porque nem eu, que não sou executiva da Globo, gostaria de ter logo de cara chocado as vovozinhas de 80 anos que assistem novelas há décadas e tirá-las do público desse produto que, enfim, agora parece que vai acertar o pé nesse quesito. Seria igualmente um desserviço. Elas desligariam a tv falando mal de tudo, chocadas, horrorizadas, tornadas ainda mais preconceituosas. Por outro lado se elas continuarem vendo novelas e outros beijos acontecerem, naturalmente, esses beijos naturalmente evoluirão e ela talvez até sorria pro novo namorado do neto dela. Afinal se na novela tem, né? Então tudo bem.

20 de jan de 2014

*Onírico 10 - Teenage dream

Tem, né?

Há alguns anos comecei a escrever algumas histórias baseadas em sonhos que tive. É um tipo bem específico de sonho. Além de muito vívidos, eu nunca sou eu. Quer dizer, às vezes até acontecem coisas do meu ponto de vista, "na primeira pessoa", mas aquela pessoa não sou eu. Não tem meu nome, nem minha história, nem minha aparência, e faz coisas que eu nunca fiz, nem faria. Eu tenho vários sonhos assim, e é claro que nem todos prestam para virar histórias. Quando algum deles tem "potencial", invariavelmente eu fico "elaborando" aquele plot por dias. Falando sozinha, fazendo diálogos, organizando os fatos na minha cabeça, acrescentando e preenchendo as lacunas que a atividade onírica não se preocupa em resolver. E acabei começando a escrevê-los. Porque afinal...

Né?

E assim surgiu, timidamente, a série de histórias que eu chamo de "Oníricos". Confesso que o primeiro nunca criei coragem de escrever (quem comprou meu primeiro livro sabe disso), por uma série de razões que,enfim, não vêm ao caso. O segundo é graaaande, virou um romance, e ainda não terminei porque dá um certo trabalho. É muito legal, vcs vão adorar, mas aguardem um pouco mais, ok? O terceiro, quarto, quinto, sétimo estão publicados no primeiro volume da série, que é completado pelo décimo segundo, um caso raro de imediatismo, um sonho que virou Onírico em um só dia, sem elaboração nenhuma. O sexto está bem adiantado, mas ainda inacabado. O oitavo só foi sonhado e plotado, ainda não comecei. O nono está apenas iniciado. E aí veio o décimo.

[diálogo original do sonho, frases mantidas intactas no livro]

Sonhei de 17 para 18 de janeiro de 2013, e fiquei o domingo inteiro bêbada de paixão. O mês inteiro. Em 18 dias a história estava escrita, e eu não desapaixonava de jeito nenhum. Me vinham cenas de depois do fim, os personagens insistiam em continuar vivendo na minha cabeça e à minha volta, mesmo depois de terminado o livro. O outro personagem exigia seu direito à sua própria versão, em seu idioma de origem.


Então sucumbi, né? Porque escrever é assim. Antes de pensar em leitor, em se dar a ler, se meter a publicar, vender e promover, escrever é como abrir aquela lata de leite de condensado porque é preciso que ela transborde logo ao primeiro golpe, ou periga espocar. É como aquela cirurgia no cérebro pra tirar o excesso de sangue, ou vc periga morrer. É preciso dar vazão ao que transborda, senão... nem quero saber. Depois que começa, não para.

E foi um ano inteiro, bêbada dessa paixão. Já lá se vão mais de mil páginas escritas dessa história (and counting!), e agora pari o começo dela para vcs. Comprem, leiam, riam, divirtam-se, apaixonem-se. Não tenho a ambição de mudar vossas vidas, mas se eu tornar vosso dia ou vossa semana melhor, já fico feliz. Porque...



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14 de jan de 2014

Benedict Cumberbatch

"The talentless wooden acting of arse-named, horse-faced twot Benedict Cumberbatch."

De acordo com alguém ("um blog", segundo o próprio), ele não tem talento, atua como se fosse um pedaço de pau, tem um nome de cu e uma cara de cavalo.


Elas discordam. Eu também. E cada vez mais gente. Milhares e milhares.

Arse-named and horse-faced? Check. Both. Que nome é esse? Que ator se lança com um nome desses?Nem o pai dele (também ator) teve coragem, e adotou profissionalmente o nome do meio. Esse nome nem dá pra galera gritar!


Ahn... Dá sim.

Ok, eu não tenho que provar que Benedict Cumberbatch é um fenômeno. Mas eu queria entender por quê. Eu queria entender por que ele é um fenômeno, e o que eu estou fazendo no meio desse arrastão que ele tá causando no seu rolezinho pelo planeta.

Ele não tem nada de óbvio, do nome à cara. Você pode facilmente - muito facilmente até - achar que ele é somente feio. Não sem graça, nem "ah, ele é ok". Não. Feio mesmo.


É um alien? Uma lontra? Uma fuinha? É o Grinch?? Vocês conseguem ter sonhos eróticos com isso aí?

Oh, sim. Regularmente.

Como, gente? Como??

Primeiro, tem isto. His. Fucking. Voice.


His voice is "like a Jaguar hiding in a cello" (The Times).

Precisamente.

Talento. Cheguei a pensar em procurar um vídeo, uma cena. Não é justo. As três temporadas de Sherlock devem ser suficientes para arrebatar qualquer mortal. Os poucos minutos de sua participação no especial de 50 anos do National Theatre bastaram para me deixar de boca aberta. Eu bati palmas pra ele sozinha em casa, vendo no YouTube (parece que esse vídeo foi retirado, uma pena). Mas e Hawking? Wreckers?Parade's End? Ele é monstruoso. Ele é possivelmente o melhor ator dessa geração em qualquer parte do mundo. Eu acho isso, de verdade, honestamente. A atuação dele me arrebata e me arrebenta, seja com roteiro de Moffat, seja com roteiro de Stoppard, seja em Star Trek.

Ele podia ser um ícone nerd, embora não acredito que seja. Interpretou Stephen Hawking e Alan Turing (em produção, The Imitation Game), esteve em Star Trek e o Hobbit. E ele é o melhor Sherlock Holmes deste século. De verdade ele provavelmente é o melhor de todos os Sherlock Holmes, mas eu tenho dificuldades de dizer isso por causa de Jeremy Brett. Mas sem dúvida ele estrela a melhor e mais brilhante adaptação de Sherlock Holmes jamais feita na tv ou no cinema. E foi assim que ele entrou na minha vida. Mas não foi tão óbvio assim me apaixonar por ele. Não esqueçam que ele não é óbvio.

Lembra que ele é esquisito, né? Ele é até meio feio, né?

Bem... Olhe outra vez.

Mas... Mas... Aquele cara?

Sim. Aquele esquisito da cara de cavalo.

Gente... Mas ele é lindo.

Pois é. E sexy.


E também... Os olhos.


E ainda... Oh, shit!


Aí você entra naquela estágio de "não é possível que esse cara seja tudo isso, bom ator pra caralho, só faz coisa legal na tv e no cinema, ele deve ser chato!".

Ele é engraçado pra caramba e super divertido. Ele ri de si mesmo, ele não se leva a sério.

"Ele deve ser grosso com os fãs."

Ele é a criatura mais doce com seus fãs que eu já vi (vide os 2 primeiros vídeos do post). Ele larga a imprensa de um lado do tapete vermelho e trota alegremente em direção aos fãs e, dedicadamente e com um sorriso no rosto, tira fotos, dá autógrafos, ri, faz gestos obscenos carinhosos e AGRADECE MILHÕES DE VEZES a presença de cada um. Eu já vi isso dezenas de vezes, e nunca vi nada diferente. Ele se deixa filmar cantando parabéns pra uma fã e se levanta do sofá de um programa de tv pra ir abraçar e beijar uma moça que viajou mais de 20 horas para ir vê-lo. Doce assim. Nesse tanto.

Por essa razão ele tem o melhor fandom do mundo. Um fandom que usa datas como o aniversário dele e o Natal para levantar fundos para instituições de caridade e dar a grana de presente em nome dele. E ele sempre agradece esses gestos efusivamente através de amigos no twitter.

Porque ele não tem twitter, mas ele entende tudo de internet. Ele brinca com a gente, ele brinca com o poder, ele brinca com o nosso mundinho. Ele interage conosco, através de um amigo ou de uma folha de papel cheia de garranchos, ou mandando um recado por algum fã que está atrás dos cavaletes, vendo as externas de Sherlock. Ele sabe que o recado vai viajar mais rápido que rastilho de pólvora e que, em minutos, todos nós, o CumberCollective, ficaremos sabendo que a bronca era para os paparazzi, e não pra nós.

(a bronca)

"Ele deve ser um alienado cabeça oca."

A propósito...

(o protesto silencioso, aka "twitter primitivo")

Ele é capaz de levar de casa para uma externa um monte de folhas de papel que levantam questões e críticas importantes e polêmicas sobre atitudes do governo britânico em termos de privacidade e segurança e se deixar fotografar em protesto silencioso fazendo MILHARES DE FÃS TROCAREM LINKS DE NOTÍCIAS PARA SABER DO QUE ELE ESTÁ FALANDO. Ele está usando a posição dele para nos informar. Ele transformou o CumberCollective numa rede de debates e discussões naquele momento. E nós todos sabemos do que ele está falando. Porque o nível desse fandom não cessa de me impressionar, e entre as amizades que fiz nesse grupo inesperado, entre os esperados ataques hormonais, falamos de machismo, feminismo, história, psicologia e sociedade, e citamos Poe, sem falar em Doyle, claro.

As entrevistas dele (escritas mesmo, nem tô falando mais dessa cara linda que ele tem, nem da voz) são ouro puro. Ele pensa. O vocabulário dele é mais sexy que a bunda dele (e ele tem uma bunda linda). De quantos homens você pode dizer isso? Ele não é óbvio,em nada. Da cara, ao nome, às opiniões e respostas. Ele não perdoa quando o jornalista é óbvio, embora ele sempre consiga não ser grosso (so brit!!). Ele é engraçado. Eu já disse isso, né? É que ele é mesmo, e eu adoro o senso de humor dele. Ele é interessado, elegante, informado, ele tem opinião, ele é sensível, filho amoroso e repleto de gratidão. Ele se diverte tão notoriamente com o sucesso que é capaz de ligar pro pai dele no meio de uma premiere e fazer a gaiatice de pedir à galera que grite para o pai dele no telefone. Ele sabe que teve uma educação privilegiada e não tem vergonha de falar sobre isso. Ele fica genuinamente chocado com seu próprio sucesso, e isso não permite que suba à cabeça. Ele faz fangirling com a Adele e o Harrison Ford. Ele toca piano e canta baixinho e faz skydiving. Ele repete roupa mesmo em grandes eventos. Ele quer amar e ele sabe dançar.

"Ele tem que ter algum defeito, porra!"

É. Ele não sabe cortar tomates...

update: Absolutamente pasma com a visitação deste post. Algo como 20 ou 30 vezes mais acessos do que a média do blog! Diante disso, não posso deixar de me aproveitar do poder Beneditino e dizer-lhes que, se gostaram deste texto, certamente gostarão do meu livro. Questão de lógica, já que eu escrevi ambos, né? Então vai lá que tá baratinho e é apenas o primeiro! Fique fã agora, você não vai querer perder o que vem pela frente.

Promise. ;)

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