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18 de fev de 2013

For the benefit of Mr. Yoll

"Seu retrato? Como eu poderia fazê-lo? Vinte vezes eu vi Arsène Lupin, vinte vezes foi um ser diferente que me apareceu... ou ainda o mesmo ser, do qual vinte espelhos me teriam devolvido imagens deformadas, cada uma tendo seus olhos particulares, sua forma especial da figura, sua silhueta e sua personalidade.

- Eu mesmo, me diz ele, eu não sei mais muito bem quem eu sou. Num espelho eu não me reconheço mais.

Gracejo, é claro, e paradoxo, mas verdade em relação aos que o encontram e que ignoram seus recursos infinitos, sua paciência, sua arte da maquiagem, sua faculdade prodigiosa de transformar até as proporções do seu rosto, e de alterar até mesmo a relação de seus traços entre si.

- Por que, diz ele ainda, teria eu uma aparência definida? Por que não evitar esse perigo de uma personalidade sempre idêntica? Meus atos me designam suficientemente.

E ele especifica com uma ponta de orgulho:

- Tanto melhor se não se possa nunca dizer com toda a certeza: eis Arsène Lupin. O essencial é que se diga, sem medo de errar: Arsène Lupin fez isto."

(LEBLANC, Maurice, L'Arrestation d'Arsène Lupin, in: Arsène Lupin: Gentleman-Cambrioleur, tradução livre)

Pode-se dizer sem medo se errar que eu tenho um fraco por personagens da virada do século 19 pro 20 com talentos para o disfarce, né memo? E uma queda federal por atores, reais ou fictícios, com equivalentes talentos camaleônicos. ;D

16 de fev de 2013

Querer, poder, saber, conseguir

É tão difícil receber críticas. Pra mim é. Especialmente de quem eu gosto e admiro. Talvez eu também não saiba criticar, me omita, por medo de magoar. Talvez seja preciso aprender.

Pessoas que se gostam, respeitam, admiram, amam até, não precisam concordar em tudo. Quando começamos uma amizade ou um amor, sempre aparecerão novidades, novas descobertas sobre o outro, e algumas delas podem pôr em cheque todo o bom sentimento anterior. Você já está amiga daquela moça afetuosa e inteligente há mais de um ano. Numa conversa, descobre que ela é preconceituosa. O cristal se quebra. Nunca mais, nada será igual.

Talvez a amizade acabe, se for algo de grave (pra mim, preconceito é). Mas bom mesmo é quando você descobre uma diferença e você aprende a respeitar. Meu melhor amigo só gosta de azul. Ele é meio radical com azul, e eu adoro azul também. Quando estamos os dois vestindo azul, ele está feliz e lembra de porque me ama. Mas eu também visto verde, amarelo, roxo, e acho que gosto mais de rosa e branco do que de azul. Nessas horas acho que ele esquece um pouquinho do porque me ama. Talvez se questione. Não sei o quanto o azul é importante pra ele. Eu gostaria de ser mais importante que o azul e gostaria que ele não gostasse menos de mim quando uso rosa pink.

Eu uso rosa pink. Eu entendo o negro, o cinza, o bege, acho bonito, mas eu sou rosa pink. Eu sou alegre. Eu sou otimista pra caralho, eu faço jogo do contente, eu sou uma escritora que, quando mira pra cima, mira em JK Rowling. E não é que eu não possa mirar, sei lá, em Eça de Queirós. Eu adoro. Mas não é pra onde segue minha mira natural.

Por que é tão difícil compreender que uma pessoa que goste de Bach e Chico Buarque possa preferir compor sertanejo? Não, eu não gosto de sertanejo. Estou dando um exemplo. Estou falando de mim, de expectativas a meu respeito, não só minhas, mas também dos outros. Mas também minhas. Eu alcanço García Márquez, eu alcanço Eça, Zola, Tolstói, Balzac, Shakespeare. Eu os alcanço, eu gosto deles, mas eu, o meu eu mesmo, a minha estação de rádio toca na frequência de Rowling, Gaarder, Bantock, Christie, Doyle, comercial de margarina (eu sei, Ane! sou eu que estou dizendo, tá amore?) e de Coca-Cola. Eu sei que existe uma hierarquia de erudição, tenho plena consciência disso. Talvez eu simplesmente não queira ter uma multinacional e fique mais contente com uma bodeguinha de interior. Talvez eu prefira a vida de balconista à de CEO da literatura. Eu adoro a sensação eufórica da minha escrita, eu adoro a euforia na minha vida, das paixões sem motivo, porque paixão não tem que ter. Eu adoro procurar e criar alegria, provocar o riso, o heart racing, o inclinar da cabeça e o enternecer. Eu gosto de provocar o prazer imediato. Talvez eu queira vender chocolate, e não absinto.

Mas há muito a aprender. Há quem ache que vendedor de chocolate é uma coisa idiota de se almejar como carreira. E eu entendo perfeitamente as vantagens de vender ambrosia e absinto. Acho luxo. Acho glam. Eu compraria seu absinto e sua ambrosia. Um torrão de açúcar, uma colherinha de café do seu caviar. Eu não te acho besta, prometo. Eu acho do cacete você ser de raiz e preferir vender rapadura e pé de moleque. Na sua banquinha toca samba e não entra chocolate belga. Na minha entra e eu toco Adele, e eu adoro, então não me desculpe, porque não vou pedir desculpas pelo meu gosto.

Minhas preferências não me limitam, eu luto diariamente por isso, acreditem. É consciente, é uma escolha minha diária. Não me limitar pelos meus gostos, pelas minhas preferências. Mas são minhas, e são eu. Eu alcanço muitas estradas, eu poderia trilhar muitas, muitas delas. Mas eu escolho a minha.

Eu podia estar matando, eu podia estar roubando. Estou só me divertindo. É assim que sei viver. Pelo prazer.

12 de fev de 2013

Feliz aniversário

Se eu tivesse talento, eu a desenharia em ultrarrealismo. Se eu tivesse o talento dela, eu lhe faria impressionista, em pontilhismo, Seuratiana, ou um Renoir, ou um Boticelli.

Ela é minha primeira criatura, meu permanente amor de alma, e eu a vejo inteira e perfeita na minha frente, e como eu queria que vocês a vissem. Seu sorriso não é muito largo, não domina o rosto inteiro, contém-se mas contagia os predipostos. Os cabelos longos, volumosos, de cor impossível, mel ou rosa, castanhos, sobrenaturais, fantásticos, inventados, cantados em verso e prosa, o rosto branco, o queixo redondo, o nariz perfeito, os olhos tristes, grandiosamente verdes, a boca pequena, redonda, os lábios médios. Ela podia ser muito que não é, que se foi roubando a alegria de ser durante anos, dez anos, mas encerra em si aquela possibilidade do pudim de leite, aquela possibilidade do alegre que só escapa no sublime da arte, mas pouco na alegria da vida. Ela ri da desgraça, e o riso da desgraça nunca é como o riso da alegria. Mas sua desgraça é risível, porque tem amor, tem paixão na sua desgraça, tem terror na sua glória, ela e tudo nela está contaminado pelo medo e pelo belo. Tem atração e enlevo pelo pecado, curiosidade mórbida de felicidade, um dispositivo de foda-se mal ajustado, um ardor imenso, uma paixão inominável, cedo demais, torta demais, grande demais, demais sem fim.

Ela aceita, e então não, ela luta, ganha e perde no mesmo golpe. Traz no nome a sorte, o azar, a bendita, a desdita, o destino.

Criada em 12 de julho de 1998, nascida em 12 de fevereiro de 1985, faz hoje no mundo dela, que é meu, 28 anos.

Feliz aniversário, Ventura García Fontain.

9 de fev de 2013

por que Sherlockians amam BBC Sherlock? 1/1.934.872

"'What are you going to do, then?' I asked.
'To smoke,' he answered. 'It is quite a three-pipe problem, and I beg that you won't speak to me for fifty minutes.' He curled himself up his chair, with his thin knees drawn up [...]"
(The Red-Headed League, sir A.C. Doyle)


"It's a three-patch problem."


Not convinced enough, are you?




Ilustração original de Sidney Paget no The Strand 
para a mesma cena transcrita acima.









Isso, minha gente, é respeito religioso pelo cânone do Conan Doyle. Três vivas para Gatiss e Moffat! Viva! Viva! Viva!

Participação especial de Jeremy Brett, porque eu também amo o Holmes dele.


Mas eu reconheço que amo o Holmes dele só com a cabeça, não com o coração, a alma, o corpo e todos os hormônios enfileirados. #cumberbatchedforlife #sherlockedforlife