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29 de out de 2012

De que lado você samba? (Você samba de que lado?)


Ah, política, sua ingrata. Atraente, linda, vistosa, irresistível. Aquela de quem todos falam, mal ou bem, que amam ou odeiam. Todo mundo tem alguma opinião sobre essa entidade feminina controversa, necessária feito mãe, meio madrasta por vezes, é verdade. Mas cá estamos todos nós, envoltos nela mesmo aqueles que não querem, que resistem. Ser apolítico também é uma posição política.

Desperta paixões, talvez nem devesse, mas assim o faz. Seria melhor que fosse refletida, racional? Pode ser, mas nem sempre é. É que mete no meio a esperança, o sonho, e aí o coração bate mais forte, e aí a gente se joga de cabeça e com tanta vontade que muitas vezes quebra a cara no fundo da piscina. E lá no fundo acabamos por ver um mundo submerso não muito bonito.

Desiludir faz parte da política, é aprendizado, é abrir os olhos, é amadurecimento. É na marra, é doído, como quando a gente termina o primeiro namoro, leva o primeiro chifre. Mas fortalece, esclarece. Descobrir que a utopia só está, e só pode estar, nas nossas cabeças é necessário, é preciso. O sonho, sim, este a gente deve levar diante dos olhos, pra seguir como objetivo, pra não perder a mira. A utopia, porém, essa não existe. Ela é que pode levar a desilusões tão fortes capazes de criar o ser apolítico, o que prefere desacreditar de tudo e de todos, já que não há a perfeição.

Porque não há a perfeição. Não é só na política, a perfeição simplesmente não há. Tê-la como objetivo já é um perigo, pois a frustração é certa. Não há homens e mulheres perfeitos, portanto não há políticos e governos perfeitos.

Dito isso, e parafraseando o D2, pergunto-vos: de que lado você samba?

Engana-se quem pensa que a direita e a esquerda morreram. Não morreram. Hoje em dia o ranço da ditadura esvaziou muito a direita, e quase ninguém tem coragem de se admitir na direita, seja partido, seja eleitor. É natural, a ditadura ainda é muito recente, os que a viveram formam hoje boa parte dos quadros dos partidos políticos, de ambos os lados (sem esquecer, é claro, o centro). Imagino que o mesmo deva acontecer em países que viveram ditaduras de esquerda, sei lá.

Às vezes penso que gostaria de ter vivido algumas décadas atrás, onde era muito mais bonito ser de esquerda. Sempre fui de esquerda, nunca fui socialista nem comunista. Sim, isso é possível. A esquerda existe desde antes de Marx, e eu tinha 11 anos quando caiu o muro, ou seja, me formei como ser político já num mundo onde o socialismo era uma opção testada e falhada.

Onde é que você vê a diferença entre a esquerda e a direita? De minha parte, acho que não é tão difícil ver. O caboco que vota na direita é aquele cara que respeita o "mercado" como uma entidade superior, que tem vida própria e leis próprias, e que o certo, o natural mesmo é "laissez faire, laissez passer". Pra ele, o governante é gerente, é gestor, o país é uma empresa, que tem que funcionar azeitada, pererê parará. Investir no social é investir na educação, porque só povo educado vai conseguir bom emprego, votar direito, subir na vida.

Eu sambo do lado da esquerda. Pra mim, função de governo não é somente organizar, gerir. É gerar também, é cuidar. Governo tem obrigações com o povo, tem que cuidar pra que tenham o que comer, remédio, o que vestir, oportunidade, aula, escola, casa. Estranhamente, acredito que a esquerda é o único modo de fazer funcionar o capitalismo. O capitalismo é, por si só, excludente, é da natureza do sistema. Não cabem todos no topo dessa pirâmide, não pode haver topo sem haver a base imprensada, espremida, arroxada. Como também não acredito que haja, hoje, opção ao capitalismo, governos de esquerda são a única solução para que o grosso da galera, que tá na base, tenha o que comer, vestir, beber, como viver. É preciso essa atenção, essa prioridade é absolutamente essencial. É preciso adaptar o capitalismo à humanidade.

A não ser que se esteja disposto a abrir mão de algumas vidas, a sacrificar os mais fracos porque é assim mesmo que funciona. Não estou disposta a isso. Entendo que o sistema econômico não é justo e luto para eleger governos cuja prioridade seja compensar esse desequilíbrio, dando a mão mesmo, dando ajuda mesmo. Sou a favor do que se chama de assistencialismo. Não acho "normal" que haja os que morrem de fome. É isso que deve ser combatido. É pra isso que serve a esquerda.

A esquerda no governo, eleita democraticamente, está fadada a decepcionar aqueles que, no fundo no fundo, sonhavam-na revolucionária. Sonhavam-na lutada, sangrada. Quando ela é lutada e sangrada, desculpem-me os meus amigos que assim a preferem, ela mata antes, durante e depois. Ela mata no poder. Ditadura não me serve, nem de direita nem de esquerda. Me alegra viver num país em que posso escrever este texto e publicá-lo, que eu possa vaiar alto nas ruas um candidato a quem me oponho se eu quiser, porque sei que não vão me prender por chamar um prefeito, governador ou presidente de filho da puta. Sei que a revolução faz parte, muitas vezes é necessária pra fazer a ruptura, sou historiadora e não sou inocente. Mas pessoalmente, o meu eu político não apoiaria um Robespierre. Taxas baixas de analfabetismo ou excelentes números de saúde em Cuba não justificam prisões, cala-bocas, falta de liberdade de imprensa e de opinião.

E igualmente aqui, no Brasil, o bom funcionamento de diversos setores infraestruturais durante a ditadura não justifica as torturas, as mortes, as perseguições. É fácil trabalhar num governo ditatorial, mais fácil do que num governo democrata. Não há jogo político, não há opções. Você senta e trabalha. Não tem que fazer acordo com outros partidos, não há partidos. Escolhe uns caras muitas vezes bastante competentes e os põe pra trabalhar nos cargos certos. Faz-se a mágica, tudo funciona, e aquela parcela da população que não tem opinião política acha que tudo vai bem. Mas é claro, ninguém discute, ninguém se opõe, e quem o faz: chumbo. Não quero pagar esse preço. Nunca mais.

Não posso, nem tenho por que, desejar que o passado do Brasil tivesse tido mais sangue. Que a Independência tivesse nascido de uma guerra, ou a República, enfim. Foi assim que se formou o meu país, e o passado já passou. Quero, e preciso, crer que é possível amadurecer politicamente através da democracia. E tenho tido recentemente boas razões para acreditar nisso.

22 de out de 2012

Teaser - verdades que ardem feito mentiras


"Começaram a cair algumas gotas finas de chuva. Tentei me abrigar um pouco encostando-me na parede da casa, ao lado da porta.

- Você está feliz? - ele perguntou.

- Estou. - acho que menti. Menti? Talvez nem tenha mentido, mas aquilo soou ardido feito mentira no meu ouvido livre do telefone."

19 de out de 2012

Avenida: a mania do Brasil

Enfim me resolvi a escrever um post sobre Avenida Brasil. Mentira. Não é sobre a melhor novela do século, mas sobre a novela que se desenrola em cima da novela.

Acho que já discorri sobre este tema umas duzentas vezes, mas não me canso de bradar (escrevendo, que a voz já não pode) contra o patrulhamento cultural que grassa hoje nas redes sociais (antes pelo boca-a-boca, quando era menos eficaz e menos aborrecido).

Lembrete 1: sei que isso pode ser duro para muitas pessoas, mas não ver novela não faz de você uma pessoa mais inteligente. Dito isto, sigamos.

Novelas existem muitas. Algumas péssimas, muitas razoáveis, várias boas e poucas excepcionais. Não é preciso ser muito esperto para perceber que estamos diante de uma novela excepcional. Poderia discutir o que faz uma novela excepcional: autor, elenco, direção. Mas vcs já sabem de tudo isso, pipocaram artigos, posts, reportagens sobre Avenida Brasil, carinhosamente chamada de #oioioi. O que me interessa aqui, no que diz respeito a uma novela excepcional, é a excepcional onda que ela forma, é o público de novela multiplicado excepcionalmente, é a montanha de reações simultâneas nas redes sociais, botecos, salões de cabeleireiro. É seu efeito excepcional na galera.

Lembrete 2: cultura produzida para poucos não é necessariamente melhor.

Salta-me aos olhos, daqui do meio desta alegre turba de brasileiros rendidos à sua mais popular forma de dramaturgia, um grupo de brasileiros com cara fechada, ofendidos com a empolgação dos fãs de Avenida Brasil, torcendo pra que esta merda de populacho acabe logo e o país possa voltar à sua habitual erudição, quando toca Villa-Lobos nas ruas e todos dançam valsas vienenses e discutem Barthes e Benjamin nos aniversários da sua família. Esse grupo é aparentado daquele outro grupo que torce pro Brasil ser eliminado na Copa do Mundo pra ver se as pessoas mudam de assunto. Alegria de populacho ofende, porque populacho é maioria e fala alto.

Eu sou noveleira pra cacete, daquelas que vê na internet o pedaço da novela que perdeu, que fica gastando banda em Paris pra ver vídeo de Avenida Brasil, que , se der, vê Vale a Pena Ver de Novo, Malhação, novela das seis, das sete (menos preferidas) e das nove. Gosto de ficção, novela, romance. Por esse mesmo gosto, leio Balzac, Shakespeare, Pessoa, Wodehouse, Leroux, Molière, Sartre, mas prefiro Camus, Dostoiévski, mas prefiro Tolstói. Leio mais de 20 livros por ano, e acho um horror de pouco. Não estou me gabando. Só queria que algumas pessoas pensassem que culturas nunca deveriam ser excludentes. Uma mesma pessoa pode gostar de ler Paulo Coelho e Eric Hobsbawm. Isso existe.

Lembrete 3: unanimidades podem ser burras, mas se vc tem como princípio que as maiorias estão sempre erradas, você é um babaca.

Não acho que todo mundo tem que gostar de novela, nem de Paulo Coelho. Mas acho, pessoalmente, um pouco pobre quem acho belo e bonito desmerecer produtos culturais nacionais de tão grande sucesso, tipo dizer que Paulo Coelho não é literatura. Que novela não é cultura. Que pagode não é música. Existe qualidade e existe gosto, mas, por favor, entendam que isso são conceitos PESSOAIS, e não absolutos. Alguém aí duvida que Shakespeare, Molière e Balzac eram os autores de novela de seus tempos e países? Dramas, comédias, paixões. A gente vê por aqui, na Globo, na Record, no SBT (ai que saudade d'As Pupilas do Senhor Reitor!), nos palcos do Globe e de Versailles, agora ou centenas de anos atrás.

Deixe de lado seu complexo de vira-lata, de achar que o que faz sucesso no Brasil é sempre porcaria porque brasileiro é burro. Porque, como dizia o filósofo, se brasileiro é burro, e você é brasileiro, logo, você é burro. E eu também. ;)