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5 de abr de 2012

Introversão não é timidez, e definitivamente não é defeito

Este artigo da Folha já é o segundo que leio sobre o trabalho de Susan Cain sobre a introversão. Estou fascinada com o que diz esta mulher e eu, que não sou chegada a livros de não-ficção, estou louca pra ler seu livro. Mal posso crer que realmente conseguiram fazer uma definição onde me encaixo.

Quem me conhece sabe que não sou tímida. Não tenho medo de falar em público, não tenho medo de abordar alguém que não conheço. Mas sou provavelmente conhecida como chata, antissocial, antipática, furona. Dou desculpas para não ir a encontros de amigos (pode ser uma única e grande amiga, podem ser dez ou vinte conhecidos, colecionadores de bonecas, por exemplo) desde que me entendo por gente e sempre preferi ficar em casa. E só. Eu amo ficar só. Não é que você seja chato (bom, às vezes vc até é), mas é que são raras as vezes em que vou preferir o contato social à quietude da minha casa, das minhas coisas. Enfim, da minha MENTE.

Eu sei trabalhar em grupo, mas não prefiro. E se for pra ser assim, acabo preferindo fazer logo tudo ou delegar tarefas e "tchau, cada um pro seu lado, depois a gente junta a tralha toda". Numa festa, se eu não participar da brincadeira, não é que eu "não tenho coragem", eu apenas NÃO QUERO. Nada é mais violento para um introvertido do que ser puxado para o trenzinho da festa de carnaval ou para uma introvertida ter um chá de panela inteiro gritando seu nome e lhe empurrando para as brincadeiras da animadora. Mesmo não sendo tímido, o introvertido não quer, simplesmente. Dá pra respeitar?

Vivemos numa ditadura de extroversão! Desde a escola temos que participar, fazer amigos, responder em voz alta. Apesar de ser uma introvertida, depois de começar a ler sobre o assunto percebi que, como professora, eu também agia errado, quando "impunha" trabalhos em grupo (eu não "impunha" realmente, mas não apresentava opção). Hoje em dia eu tenho apenas sugerido: quem quer faz sozinho. É impressionante o resultado: alguns alunos simplesmente abaixam a cabeça e começam a trabalhar: outros olham pro lado, buscam um colega que também está em busca de alguém e pronto, trabalham juntos. Algum está certo? Ou errado? Não. Errado é forçar a pessoa a aprender (ou a agir, ou a se divertir) de um jeito que lhe contraria.

Uma vez eu estava numa festa da empresa, lá em São Paulo. Era uma festa daquelas que duram um dia inteiro, num sítio, tem churrasco e centenas de pessoas. Eu tinha conseguido evitar ir a essa festa nos dois (ou três?) primeiros anos de trabalho. Quando eu fui, conversei um pouco, ri, comi e procurei um lugar confortável para sentar e ler o Luiz Fernando Veríssimo que eu estava lendo na época. Não demorou cinco minutos até a minha inocente atitude incomodar um extrovertido. E veio uma colega, falando alto: "ei, o que vc tá fazendo aí sozinha?? Hoje é Dia do Lazer!" (esse era o nome da festa). Ao que eu imediatamente tive que responder: "mas eu tô lendo Veríssimo e morrendo de rir, tu achas que eu não tô me divertindo??"

Gente puxando conversa em avião, sala de espera de médico, gente que tem alergia a duas pessoas em silêncio: por favor, respeitem os quietos. Ser quieto e ser feliz é possível, embora os extrovertidos achem improvável. Mas fica mais difícil ser feliz com esse povo puxando a gente pra pista de dança...