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10 de abr de 2011

O galã incômodo

Vou descrever um carinha pra vocês: ele tem o corpo sarado, é um excelente ator, respeitado em teatro, tv e cinema, jovem, bonito, elegante, gostoso, simpático, carismático, tem um sorriso lindo, é inteligente, já trabalhou com comédia e drama. Está casado com uma atriz belíssima igualmente bem-sucedida que já protagonizou novela das nove, e o casal está grávido. Ele tem 32 anos, já foi indicado ao Emmy, mas só agora está fazendo seu primeiro papel de galã.

É que esse cara é negro.


Lázaro Ramos, como diria o clichezento Faustão, é um dos ícones da sua geração de atores. E é lindo. Vibrei com seu papel em Insensato Coração (novela fraca pra diabo), o designer pegador André Gurgel, pois enfim fariam jus ao potencial mega-gato do Lázaro.

Daí vi alguns comentários no Facebook, gente dizendo que ele não tinha nada a ver com o papel, fazendo piada como se vê-lo como galã fosse o fim do mundo. Não vi nada demais nisso, mas acabei comentando com uma amiga, e em outra ocasião, com meu marido. Ambos disseram que também ouviam muitos comentários desse tipo, de pessoas diferentes, na internet ou fora dela. Fomos, aos poucos, concluindo que as pessoas estavam incomodadas com um negro nessa posição: rico, bem-sucedido, pegador, o galã da novela (porque a história dele e da Camila Pitanga engoliu e deglutiu a do suposto casal principal Paola Oliveira-Eriberto Leão).

Não combina, esse papel não é pra ele. Claro que não. Não é escravo, não é pobre, não é cômico, não é estereotipado, feito Foguinho, Evilásio ou Roque, papéis de sucesso que ele teve antes, mas nos quais não desafiava o lugar do negro na televisão. A própria mulher dele já havia desafiado esse lugar, sendo a primeira protagonista negra de uma novela das nove, infelizmente uma novela chatíssima, mas eu geralmente não gosto de Manoel Carlos e, pra falar a verdade, acho a Taís Araújo chata, muito pessoalmente. Lázaro é um ator de MUITO mais calibre que sua esposa, mas nem é isso que vem ao caso. O que me surpreendeu com tristeza foi o preconceito velado que as pessoas têm e tantas vezes nem sabem. A maioria negará, dirá que não é porque ele é negro. Mas na verdade o primeiro desconforto vem daí. Do que não combina. Do que saiu do esquadro.

Reinventemos não só a realidade, mas também a ficção, que tanto serve de parâmetro. Não só porque há milhões de meninas e meninos negros no Brasil que precisam de referências, de beleza, sucesso, talento na mídia, que precisam enxergar negros, ver negros e sentir orgulho, sem ter que ficar procurando, mas porque estão mesmo por aí. Não. Façamos isso porque é assim que é. Porque ele É lindo, porque ele É charmoso, elegante, gostoso e talentoso. Lázaro Ramos não é galã por cota, minha gente. Ele É galã.

 Pegael, tesouro!

p.s.: Lázaro, meu bem, aqui em casa tu ruleia de cabo a rabo em meu insensato coração, seu lindo. Galã pode ser negro, nordestino e bom ator, não precisa ser canastrão. Viva!

p.p.s.: teu mano, Wagner Moura, tb tem grande aceitação, percebe? venham juntos, eu abro a porta, amores!