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31 de dez de 2010

Os livros lidos em 2010


Seguindo a tradição, vamos ao post dos livros lidos no ano que se passou. Minha lista ficou meio desorganizada este ano quanto à ordem, por isso resolvi apresentá-la de outro modo, por temas. As releituras estarão marcadas com (R) e a numeração não representa a ordem em que foram lidos durante o ano, porque fui anotando meio doidamente:

1) Sem sangue, Alessandro Baricco
2) La comtesse de Cagliostro, Maurice Leblanc: mais um da série de Arsène Lupin. Apresenta a condessa de Cagliostro, personagem fascinante e intrigante. Mas ainda prefiro L'Aiguille Creuse.
3) Obrigado, Jeeves, P.G. Wodehouse: absolutamente delicioso como todos de Jeeves, de causar xixi nas calças e crises de riso vergonhosas, caso vc caia na besteira de ler em público. É meu terceiro Jeeves.
4) Eu mato, Giorgio Falletti: policial excelente, para corações fortes. Nada de crime confortável aqui. Requer estômago. Mordida a isca do mistério, fui até fim. Mas não lia de noite. :|
5) Resistência, Agnès Humbert: eu e meu fascínio pela Segunda Guerra. História verídica de primeira qualidade. Imperdível.
6) Trois Contes, Machado de Assis (ed. bilíngue, trad. p/ o francês Jean Briant): versão bilíngue de Machado traduzida pelo meu mestre amado-idolatrado professor.
7) Persépolis, Marjane Satrapi: conheci Marjane Satrapi através de uma aluna. Me diverti e aprendi muito.
8) Bordados, Marjane Satrapi: bom, mas Persépolis é muito melhor.
9) Entrevista com o vampiro, Anne Rice: sim, creiam. Meu primeiro Anne Rice. O vocabulário da Anne Rice é lindo.
10) O amor nos tempos do cólera, Gabriel García Márquez: sim, creiam. Meu primeiro García Márquez (inteiro). Simplesmente perfeito, porra, vou dizer mais o quê?
11) Paris (Guia Folha): assumi minha paixão por ler guias de viagem este ano, e pronto. Leio a passos de cágado, como se viajasse. Estou lendo mais uns três ao mesmo tempo agora, sem a menor intenção de terminar. Quando eu termino, ponho na conta daquele ano. Esse Guia da Folha é muito bom, cheio de dicas legais e úteis, mas a revisão é uma porcaria.

O bloco Agatha Christie
12) O assassinato de Roger Ackroyd: ah, o prazer de descobrir o culpado um pouco antes! Um dos mais engenhosos e mais bens construídos. Muito bom!
13) Testemunha de Acusação e outras peças: peças não são tão legais, mas a primeira é de tirar o fôlego.
14) Os Quatro Grandes: não gostei.
15) O mistério do trem azul: bom, mas nada de espetacular.
16) A noite das bruxas: gostei muito de alguns aspectos deste aqui, a parada do cold case, sabem?
17) É fácil matar: bem legal, fui muito bem enganada nesse aí.
18) Mistério no Caribe: excelente. A parada do cold case de novo, adoro.
19) Cai o pano: Oh-my-god. Na verdade esse é que foi o trigésimo livro, terminei ontem. A última aventura de Poirot, e totalmente surpreendente em mil coisas. Pelo método do assassino, pelo que acontece ao Poirot, pelo que ele é capaz de fazer, o danado! Épico.

Muitas releituras

20) As Aventuras de Sherlock Holmes vol 3 - Estrela de Prata (R)
21) O cão dos Baskervilles (R): estou relendo todos os Sherlocks, no momento tenho um volume em espanhol, que ganhei dos meus pais.
22) O dia do curinga (R): de vez em quando releio. Essencial para a vida.
23) Pollyanna, Eleanor H. Porter (R): reli depois de uns 20 anos. Revigorante.
24) Fanfan, Alexandre Jardin (R): graças à continuação on-line que Alexandre Jardin está escrevendo, não resisti e em uma semana devorei meu conto de fadas da juventude.

Tentativa
25) O guia do mochileiro das galáxias, Douglas Adams (R)
26) O restaurante no fim do universo, Douglas Adams (até agora não sei se é releitura. sei que comecei, mas não sei se terminei uns anos atrás)
27) A Vida, O Universo e Tudo Mais: para ver se termino a série, concluo que só gosto mesmo do primeiro.

O bloco Petit Nicolas
28) Les surprises du Petit Nicolas, Sempé-Goscinny
29) Le Petit Nicolas s'amuse, Sempé-Goscinny
30) Le Petit Nicolas et les copains, Sempé-Goscinny (R): começar a reler Petit Nicolas é o princípio do desespero, percebem? Tá acabando. Só falta comprar uns dois... :(


p.s.: Mais um ano sem JK Rowling, e contando. Bora, lôra!

26 de dez de 2010

The Adventure of the blue carbuncle - Sherlock Holmes: O carbúnculo (o rubi) azul


"Meu nome é Sherlock Holmes, 
e é meu dever saber o que os outros não sabem."
(O carbúnculo azul, in As Aventuras de Sherlock Holmes vol. 2 - 
Um escândalo na Boêmia. Círculo do Livro)
É uma história favorita, que se passa quase inteiramente no dia 27 de dezembro e tem uma temática meio natalina.

Eu adoro essa história. Primeiro porque ela começa de modo tão inusitado, com um porteiro de hotel - Peterson - que aparece no 221B da rua Baker com um chapéu e um ganso abatido nas mãos que foram largados por um desconhecido Henry Baker numa rua qualquer. Holmes aconselha Peterson a levar o ganso pra casa e comê-lo, e fica com o chapéu.

E a segunda razão para gostar dessa história é que, a partir do chapéu, Holmes faz aquilo que faz melhor: ele deduz. Faz uma brilhante sequência dedutiva a respeito do proprietário da peça sem nunca tê-lo visto, a qual, claro, se confirmará mais tarde.

       - Então diga-me o que você pode deduzir desse chapéu...
       Holmes segurou-o e olhou- o daquele modo introspectivo que lhe era tão peculiar.
       - Sugere menos do que se poderia esperar; contudo, há algumas coisas muito claras, e outas que nos dão apenas alguns indícios. O homem é um intelectual, é mais do que evidente; acha-se atualmente em péssimas condições de vida, o que acontece de uns três anos para cá, pois antes disso vivia bem. Anteriormente, era cuidadoso, mas seu cuidado diminuiu de uns tempos para cá, o que é sinal evidente de decadência moral, a qual aliada ao declínio de seus bens, deve ter sido causada por alguma influência perniciosa, talvez a bebida, e essa pode ser a razão por que a mulher deixou de cuidar dele e talvez  já não o ame.
        - Meu caro Holmes!


Como sempre, podemos esperar que, após a explicação dos detalhes do chapéu que conduziram Holmes a cada uma das conclusões, o espanto de Watson se transforme em complacência, né? "Oh, é claro, é muito simples", dirá ele, ou algo semelhante. Sei, sei... 

O que não passava de uma distração matutina entre amigos torna-se um caso importante quando Peterson irrompe novamente no 221B tendo nas mãos uma pedra que fora roubada recentemente da Condessa de Morcar: o carbúnculo azul. Estava dentro do papo do ganso! E aí começa a brincadeira de verdade...

A grande sacada é que, pra chegar no ladrão, eles têm de refazer o caminho ao contrário. Do papo do ganso até o momento do roubo. É divertido!

Resolvi aproveitar o Natal e o carbúnculo azul para comentar a série The Adventures of Sherlock Holmes da Granada Television, que começou meio fraca, mas foi melhorando ao longo dos episódios, e o sétimo da primeira temporada, que corresponde a este de que vos falo, é bem legal. Nos papéis principais de Holmes e Watson temos Jeremy Brett e David Burke. É um bom Sherlock Holmes, acho que até conta com aquele toque afeminado na medida certa, porém a elegância máscula do cinismo também está presente (no entanto as lutas são muito mal coreografadas, senhor!). Ainda estou em busca da excelência no Dr. Watson*. Acho esse fraco. : (

Ponto fraco da série: direção e produção. Não mantêm um ritmo cativante, que prenda o telespectador. Ponto forte da série: fidelidade ao texto de Conan Doyle.

Pude comprovar isso assistindo ao episódio The Blue Carbuncle. Fiquei acompanhando com o original em inglês na Wikisource, e, gente, é fidelíssimo!! Os diálogos, tudo, uma lindeza! As lindas tiradas de Holmes, e na minha opinião, esse é o segundo melhor episódio da primeira temporada dessa série  (só perde para The Speckled Band), até em termos de produção. Vão ao detalhe de tentar reproduzir as cenas como nas ilustrações originais do The Strand!! Luxo!

Eu tenho adoração pelas ilustrações originais do The Strand, vejam só a cena clássica do estudo do chapéu:



E agora na série televisiva da Granada:


Meu povo, fiquei passada e engomada. Que coisa leeeeenda. Parece que o homem criou vida e saiu das amassadas páginas do periódico The Strand! Emocionante! Chuif... :`}

As necessárias adaptações são feitas, e uma sequência inicial é acrescentada ao episódio, explicando o roubo da joia antes de ela ser encontrada no papo do ganso pelo porteiro, mas achei bem feitinho, porque não "spoila" muito. Ah, a data também é transferida do dia 27 pro dia 24 de dezembro, pra acrescentar um clima mas natalino, fazendo mesmo como se fosse o Natal do Sherlock Holmes, mas ficou bom, pra justificar a surpreendente atitude dele no final.



Sem spoilar vocês, tem uma coisa do final que eu achei bem legal. Uma frase que foi usada idêntica ao texto original ("Afinal de contas, Watson, não sou empregado da polícia para suprir suas deficiências."), mas que, no livro, tem entonação leve e despreocupada e, na telinha, Brett carregou num drama que encaixou no momento. Aprovei! ;)

O vídeo abaixo é maior do que eu gostaria, mas pode matar a curiosidade de vocês.


A cena do estudo do chapéu começa a ficar bacana lá pelo minuto 7:10, mas a parte que eu citei em itálico acima está no minuto 8:46.


* Pensando bem, acho que o John Watson do Martin Freeman ("Sherlock", BBC) é o que mais me agrada porque guarda uma característica essencial do personagem: ele é fascinado pela habilidade de Sherlock Holmes. Não se pode travestir essa idolatria de desprezo, dê outro jeito de tornar uma série televisiva interessante. Um médico não iria se dar ao trabalho de contar as aventuras do melhor amigo detetive se não ficasse embasbacado com sua capacidade dedutiva.

23 de dez de 2010

Minha receita deste natal - Bombom de panetone

Que a Nigella Lawson é inspiradora, bom, isso todos já sabem, e eu já sabia. Vendo este programa, a primeira receita me pareceu muito interessante, e passível de adaptações.


Demorei a achar a receita da Nigella, mas encontrei neste link: http://www.styleathome.com/food-and-entertaining/recipes/recipe-nigella-s-christmas-puddini-bonbons/a/18992

E comecei a substituir as coisas. Basicamente, a base dela, que é o Christmas pudding, troquei por panetone. E o sherry virou licor de cacau, que eu tinha em casa. Minhas medidas foram muito "no olho", até alcançar a consistência que vi no vídeo (o que pra Belém não é suficiente, tem que ter mais chocolate pra ficar mais duro). Mas vamos lá que ficou bom à beça!

BOMBOM DE PANETONE


Ingredientes

3/4 de um panetone de 750g - gelado (deixe por algumas horas na geladeira)
licor de cacau (eu fui colocando até dar o ponto e o gosto que eu queria)
3 ou 4 colheres de sopa de glucose de milho - Karo
uns 250g de chocolate meio amargo
uns 100g de chocolate branco
algumas cerejas ao marasquino picadas

Preparo

O panetone (pode ser um bolo de frutas também) tem que estar gelado senão não rola. Pique e depois esfarele numa tigela. Comece a adicionar a glucose de milho e o licor, misturando bem com um garfo. Umedeça o panetone/bolo até obter uma massa que fique homogênea, mas grude nos dedos (por isso recomendo misturar com o garfo, na verdade).



Derreta o chocolate meio amargo e misture à massa, bem misturado.



Depois faça bolinhas, coloque num tabuleiro e leve para gelar até firmar. Então derreta o chocolate branco e coloque só um pouquinho em cima de cada bombom, como se tivesse "nevado". Com o chocolate branco ainda mole, decore com um pedacinho de cereja. Devolva os bombons à geladeira.

Rende uns 50, 60 bombons, depende da sua bolinha.



Feliz Natal! ;)

21 de dez de 2010

Sherlock Holmes - Noite Tenebrosa (Terror by Night)

Entre as primeiras adaptações cinematográficas do detetive da Baker Street figuram os filmes com Basil Rathbone no personagem principal. São os primeiros filmes de Sherlock Holmes falados, sabiam? Nigel Bruce faz um Dr. Watson desnecessariamente velho, mas essa é uma mania comum de algumas adaptações de tevê e cinema (nem todas: a nova série Sherlock, da BBC, coloca os dois amigos corretamente na mesma faixa etária).

Pois eu ganhei de Natal da querida Lu Naomi o dvd de Noite Tenebrosa (Terror by Night, 1946)! Gente que ama bons crimes e mais ainda os elegantes solucionadores dos mistérios criminais, como nós duas, vibra com uma Noite Tenebrosa a preencher seu Natal, né não? Pois eu já assisti duas vezes, não por uma razão qualquer, mas porque esse ótimo dvd (pela primeira vez em cores) traz nos extras a versão em preto & branco. Não resisti, e vi as duas.


Segundo a wiki, o roteiro é livremente baseado em duas histórias de SH: The Adventure of the blue carbuncle e The Disappearence of Lady Frances Carfax. Eu encontrei muito pouco dessas histórias no roteiro. Um velha dama, uma joia, o esquema do caixão. Digamos que seja inspirado nos contos. Mas é um bom roteiro. Assassinato, roubo, luta, a retomada de um clássico vilão (não, n00bs, não é o Moriarty! :P A história já se passa após a morte do maior inimigo de Holmes), e o curioso empréstimo a Agatha Christie de um elemento criminal pouco sherlockiano: o confinamento no trem.

Sherlockianos costumam se ressentir das tentativas de humor nas adaptações, porque Conan Doyle não incluía humor nos seus textos, mas eu pessoalmente já considero uma vantagem se o alvo do humor não for o próprio Holmes. No caso, Watson e Lestrade são os ridicularizados, talvez um pouco demais, especialmente Lestrade, coitado. No final ele é de grande ajuda, mas claro que o golpe de mestre é do mestre. Sherlock Holmes! : )

Apesar de virar alvo de piada, Watson foi bem retratado. É bem dele confiar logo nas pessoas e querer fazer algumas coisas sozinho na investigação. Claro que, nos livros, ele não é tão desastrado quanto foi nesses filme. E pra quem gosta das comparações Agatha-Christianas, acho que Watson com o tempo tornou-se um sidekick mais competente do que Hastings. Talvez, afinal, o ego de Poirot fosse de fato maior...

Rathbone faz um belíssimo Holmes, centrado, alto (como isso é indispensável), expressão de escrutínio na medida, a luta coreografada (no estilão da década de 40, claro, mas já deu um banho na série da Granada Television), enfim: vestiu o sobretudo com dignidade e fumou o cachimbo com propriedade. Mereceu seu Holmes. Fazer um Holmes correto é tudo o que um aficionado espera de um ator britânico, alto, magro de cabelos castanhos.

Se tiver nariz aquilino, é bônus! ;D

19 de dez de 2010

Clube da Esquina e outras mineirices musicais

Há dez anos, graças ao Emerson, comecei minhas incursões na mineiridade (e ele no paraensismo), o que inclui nos carros-chefe comida (minha sogra faz por onde) e música. Aí tem uma parada que me fascina: o Clube da Esquina.

Rapaziada, o Clube da Esquina é ou não é a galera mais emaconhada da MPB? Eu acho uma gracinha, sem hebismos. Sexta ganhei num amigo invisível (secreto, oculto, enfim, regionalismos à parte) daqueles de surpresa mesmo, sorteio na hora, o cd "Miltons Minas e Mais", do Emmerson Nogueira. Quais as chances de alguém levar pruma festa um presente unissex, te sortear e te dar um cd de um cara que vc gosta tanto a ponto de ter quatro cds do cabra, mas não ter justo aquele? E era de música mineira.

Eu tenho um outro cd de galera coletaneando música mineira, é do Roupa Nova, que eu amo também, é o "Ouro de Minas", que é ótemo, aquele estilão vozes do Roupa Nova, e com convidados. Os dois cds, enfim, são excelentes, estilos diferentes, recomendo ambos. Duas canções se repetem apenas: Fé Cega, Faca Amolada; Nada Será Como Antes. Ryca esta música mineira, hein? Achei que ia repetir mais. Que nada!

Daí que fiquei, domingo de manhã, ouvindo a voz agradável e os bons arranjos do Emmerson Nogueira na companhia agradabilíssima e insuperável do Emerson Santana Pardo e continuei a desenvolver toda uma teoria meio canalha - sem nenhuma base válida! - sobre música mineira. Vai mais ou menos assim (desliguem suas cronologias, fazfavô). Eu vou botar toda a mineirada na esquina e pronto.

Numa Esquina com E maiúsculo, um plácido rapaz negro de boné fazia música. Ele viu que era boa. Ok, todo mundo via que era boa. Seu penteado era um pouco esquisito, mas a música e a voz compensavam. O penteado foi perdoado, e o boné cobria. Ele se chamava Milton.

Aí tinha o Beto. O Beto morava numa colônia hipponga chamada Lumiar, e fez um jingle pra chamar a galera emaconhada pra ir pra lá comer, jantar, farrear, caçar sapo, contar causo, acordar, levantar e fazer café pra curar a ressaca da cachaça mineira que rolava na Esquina, que a esta altura já era um buteco, como toda esquina de Beagá tem que ser.

Lô era um caso à parte. Jogava RPG até altas madrugadas, estava convencido de que era um cavaleiro marginal lavado em ribeirão, que viveu mistérios, cavaleiro negro, senhor de casa e árvore (ecologia já tava na moda e tals). Lô era caso grave, tinha visões com igrejas, sinais de glória, muros brancos, voos pássaros, grades e sinais. Provavelmente o cigarrinho do demo era brincadeira de criança pra ele. Corria à boca pequena na Esquina que ele já tava com a Lucy no "Séu" entre Diamantes. Falava de todas essas paradas, dos homens sórdidos, das cores mórbidas, mas ninguém escutava nem queria acreditar. Por pouco não foi internado, coitado.

Flávio era romântico. Tinha futuro na doidice com Linda Juventude, aquela parada de zabelê-zumbi-besouro-vespa fabricando mel (abelha não cabia na rima, pô) era bem esquinosa. Mas quando ele me apareceu na Esquina com aquela rasgação pela dançarina de flamenco que lhe apresentou a espanhola, rapá, foi uma zoação. Um tal de "Flávio, vai te criar, toma uma cachaça, vai virá macho, 'se for chorar, te amo?'" Sempre assim. Amigo arruma mulher, os outros dão pinote.

Milton olhava tudo de cima (levantando um pouco a aba do boné, senão lhe cortava meia visão), jogando bola de meia, bola de gude, porque tinha uma certa magia, uma força que alertava a rapaziada. Não perguntava onde ia dar a estrada, e deu que uma molecada doida numa bola chegou na Esquina, não se sabe muito bem se na base das #dorgas, mas talvez àquela altura já nem precisasse pois no sangue corria a falta de juízo necessária para a produção de música-mineira-esquineira. De cara havia coveiros gemendo e realejos ancestrais jurando, o que apenas prenunciava, comandante capitão tio brother camarada chefia amigão (por acaso essa é a folha de pagamento atual do Clube da Esquina F.C., o Buteco), que os meninos eram adeptos do clássico embebedamento mineiro. Desce maaaaaais. Desce maaaaais que aqui homem vira macaco e mulher vira freira. Milton acabou respondendo na mesmo moeda e dando-se a gravar música dos moleques e tudo. E ele viu que era bom.

Daí que eu acho que em Minas é assim. Se fizer muuuuito sentido, se você estiver muuuuuito sóbrio, ih.... não vai pegar.